Um apelo à multiculturalidade

by Admin
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Um apelo à multiculturalidade

“Vem aí Lulu”

Óscar Magrini, Paulo Gonzo, Pepe Rapazote, Carlos Paca, José Carlos Pereira, Valter Ananás e os Irmãos Verdade, estão na última comédia do autor, produtor e actor Pedro Anjos.

Depois de se formar como actor em Londres, Pedro Anjos fez em Portugal, trabalhos de publicidade e novelas que, não lhe deram o que esperava da representação. Decidiu voltar para sua terra natal e dedicar-se à escrita de argumentos para cinema. Escreveu para dois filmes em que, fez também de actor e produtor, nomeadamente, “A última Famel” e “Famel Top Secret”. No balanço da inspiração que lhe proporcionaram estes trabalhos Pedro idealizou outro filme. Desta vez uma comédia se baseia na sociedade portuguesa e no mundo ilusório dos influenciadores digitais. “Lulu”, é a comédia que em breve estará nos cinemas em Portugal.

Ao escrever “Lulu”, personagem que ele próprio representa, Pedro pensou em artistas que conheceu ao fazer a peça de teatro, “África”, com a produção de Isabel Medina. Músicos africanos, de Cabo-Verde, Guiné, Moçambique, Angola, faziam parte da percussão da peça. "Por outro lado, tenho grandes influências de Angola, os meus avós viveram lá desde a década de 40/50, sempre tive uma grande aproximação, espero conhecer o país agora, com o filme “Lulu”», afirma. Na entrevista que se segue Pedro Anjos fala do seu próximo filme, das expectativas, da mensagem contida na obra e da sua vontade de promover a multiculturalidade.

Como é ser autor, actor principal e produtor no filme “Lulu” ? Qual destas funções o absorveu mais e qual lhe deu mais gozo?

O cinema e a representação foram sempre uma grande paixão. Em Agueda resolvi escrever para mim, todo o trabalho de autor e produtor foi compensado com o gozo de poder representar o “Lulu” que é um personagem muito engraçado. Deu-me algum trabalho, porque era um em dois, ele vive uma vida dupla, de dia é uma pessoa e a noite transforma-se noutra. Logo, interpreto dois papeis, um rapaz “normal”, que limpa piscinas durante o dia, e a noite um influencer, num meio social de festas, um relações públicas da noite.

Na verdade fiz de tudo um bocado, até metade das roupas dos actores eram as minhas roupas pessoais, a direcção de arte também, tive ajuda claro da minha equipa. Essencialmente a produção executiva fiz com o meu sócio, Guilherme Marques, temos a produtora Universe Caliing, financiamos o filme todo, com alguns patrocinadores, depois entreguei toda a preparação do filme à Rita Simões, foi a nossa directora de produção, durante o filme ela produziu, porque eu tinha que estar concentrado no meu papel e tive que fazer um bocado de tudo, estava na minha terra, as pessoas não conheciam os sítios, tinha que ajudar na produção e as vezes até ir buscar comida e mais isto e mais aquilo (risos). Quando se tem uma produção independente, com dinheiros próprios, temos que poupar tentando fazer o melhor possível. Gosto muito de filmes de entretenimento, comédia. Ao voltar para Agueda e escrever os filmes que quero fazer, escolhi um caminho mais difícil, mas também dá outro gozo, representa uma luta por um ideal e quando fazemos um filme nosso do principio ao fim é como um filho que se cria.

O nome Lulu, por si só já é algo brejeiro, trocista não?

PA - O “Lulu” chama-se João, é conhecido como João das piscinas. Depois vai comprar umas roupas a um cigano amigo dele e a noite transforma-se no personagem “Lulu”, um influencer, que tem tipo: uma entourage, umas amigas que andam sempre com ele. O nome faz um bocado o estigma, um pouco dos personagens que hoje em dia inundam as redes sociais, que são criados para impressionar e que no fundo, as pessoas nesse mundo digital, dos influenceres etc., mostram algo que nem sempre é o que parece, acontece muito hoje em dia, as pessoas quererem aparentar para os holofotes o que na verdade não são. Foi um personagem inspirado nisso, inspirei-me muito na sociedade portuguesa, fazendo uma sátira, não uma sátira pejorativa, mas positiva, é uma estória de amor, tem personagens de todas as etnias que vivem Portugal, ciganos, brasileiros, angolanos, portugueses, a mensagem é muito positiva, no sentido em que as pessoas não devem ultrapassar umas às outras pondo a frente o sucesso e pondo de parte a educação e o respeito pelos outros. É uma mensagem muito forte mas é dada de maneira cómica e positiva, foi esse o meu intuito.

Entram dois angolanos, um supostamente é um general, interpretado pelo Bebé, um grande amigo do Paulo Gonzo. Quando o Paulo veio me visitar para falar do filme, vi o Bebé que é um matulão e convidei-o para o papel do general. Foi muito interessante, até o guarda roupa do general fui eu que fiz, comprei um fato, arranjei umas medalhas, comprei um chapéu de militar. Não para brincar com coisas de respeito, mas para que se percebesse que era um general. O Carlos Paca faz o papel de um empresário angolano que vive em Portugal com a sua esposa e tem negócios cá, não quero contar muito mais, para surpreender o público naturalmente, mas tanto o Paca como o general fazem dois personagens engraçadíssimos que o público vai adorar, isso posso adiantar.

Como foi trabalhar a captação de actores ?

Quando escrevi já tinha quase todos os actores escolhidos, porque me inspirei pensando em actores que são a maior parte, meus amigos e amigas. O casting foi feito mesmo em cima de começar a filmar. O Carlos Paca não conhecia, foi um grande amigo que me deu o contacto dele. Ele é de facto um grande actor.

E o envolvimento de Óscar Magrini?

PA - Ele foi de uma generosidade inacreditável com os colegas de trabalho, porque escolhi actores afirmados mas também actores que nunca fizeram cinema. É o caso de um grande amigo, o Francisco Monteiro, que faz de cigano, nunca fez nem teatro, nem televisão, nem cinema. Mas achei que nenhum actor conseguiria fazer tão bem de cigano como o próprio cigano, quis um cigano genuíno para mostrar também um pouco da cultura cigana no filme, e foi espectacular.

Porquê que escolheu músicas do cantor angolano, o Valter Ananás e dos Irmãos Verdade ?

PA - O facto destes cantores terem aceite entrar como meus parceiros no filme foi muito importante, permitirá caracterizar melhor as cenas do Carlos Paca. A produção pode estar muito boa mas se a música não acompanhar a estória, não parece tão real. Daí que, tanto a música dos Irmãos Verdades como a do Válter Ananas serão importantíssimas na caracterização dos personagens e no preenchimento do filme, cinema sem música não existe. Estamos todos juntos nisto e será até um exemplo para angolanos, portugueses, brasileiros, para os países dos PALOP sobretudo, no sentido de darmos mais as mãos, todos juntos podemos ser uma potência mundial, tanto a nível de negócios como na arte ou no que for, temos laços familiares, a língua que nos une, apesar de haver aspectos diferentes nas nossas culturas. Acredito que temos tanta coisa, mas tanta, que podemos fazer juntos sem nunca perdermos a nossa identidade ou a nossa cultura, temos um mercado vasto, porquê que trabalhamos sempre tão fechados né? Acredito que podemos nos unir mais e fazer coisas maravilhosas, essa é a minha motivação.

Onde será distribuído o filme?

PA - A minha empresa a Universe Calling tem também o segmento da distribuição por isso vou fazer uma antestreia do filme, será uma projecção privada para actores imprensa e patrocinadores na cidade de Agueda onde filmei. Entretanto estou em conversações com a NÓS, para distribuir nos cinemas portugueses. Como sou cineasta, à semelhança do que aconteceu com o “Famel Top Secret”, que está passar nos canais por cabo e streaming, mas quero passar primeiro no circuito dos cinemas. Acho que a mensagem de promoção da multiculturalidade vai se encaixar como uma luva nos festivais por esse mundo fora. E, quando chegar a altura, estarei disponível para negociar com plataformas digitais como a Netflix e outras. Investi neste projecto muito do meu dinheiro e gostaria de rentabilizar o investimento que fiz.

Quando e em quanto tempo escreveu o guião e onde decorreram as filmagens?

PA- Há 7 anos atrás, quando terminei o filme da Famel, estava numa fase de inspiração. Todos os guiões que escrevi fi-lo em relativamente pouco tempo, porque se parar perco a inspiração. Este guião fiz em cerca de 3 semanas, em que nem saí de casa. 

Comecei o filme antes do Covid nos Estados Unidos, em Holywood, porque há uma cena que se passa em Holywood, ao voltar a Portugal começou o Covid, tive que adiar o resto das filmagens. Foram feitas em Dezembro de 2021, com bastante esforço, filmamos em 22 dias. Eu tinha um orçamento muito pequeno o que tornou as coisas um pouco mais difíceis, mas tive a ajuda de patrocinadores, dos actores, claro que receberam um cachet, mas agradeço-lhes para toda vida porque foram muito generosos e profissionais de topo.

Depois de Holywood só filmamos em Águeda, e em Ílhavo precisamente por causa do orçamento limitado, qualquer deslocação iria aumentar muito o custo do filme, por incrível que pareça, consegui, arranjar todos os “locations” numa cidade tão pequena como Águeda. Mas a estória também foi escrita a pensar nisso tudo, como autor e produtor executivo pensei nos custos todos. No cinema, podemos ter muita criatividade e muitas ideias mas por vezes, saem caras, daí que é necessário que haja algum equilíbrio ao criar, para que o filme seja exequível.

Podemos considerar um filme baseado na vida real?

PA- É um filme baseado na nossa sociedade, criei um personagem que é uma sátira às pessoas que vivem da futilidade, do aspecto, das redes sociais, que vivem do exterior e não do interior. Mas a mensagem é muito positiva sem desfazer ou agredir alguém, é uma mensagem passada de forma muito cómica, muito leve. Não há nada de negativo no filme. Sou uma pessoa muito positiva e tento que os meus filmes o sejam também, no sentido de irmos todos pra frente, de mão dadas e vivermos uma vida alegre que é o que todos precisamos.

O Paulo Gonzo entra como músico?

PA- Sim, há um momento musical num restaurante japonês em que estão os principais personagens, ao invés de um cantor qualquer convidei o Paulo Gonzo, que é meu amigo e também alguém que acreditou desde o início no projecto. Canta a música “Sei de cor”, foi um momento que serviu para termos uns instantes para descontrair durante o filme.