Tenho uma preocupação social muito acentuada

by Admin
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Tenho uma preocupação social muito acentuada

Entrevista com Miguel Sermão - Actor residente da Comuna

Fez a direcção de actores na série Café Kwanza, é fundador da companhia de teatro Griot, dá formação em várias escolas portuguesas e em Angola, sempre que pode. Miguel Sermão é actor há 30 anos e assume ter uma preocupação com a sociedade, maior do que a ambição como artista. “Não quero ascenção social, por isso estou à vontade com o que faço, porque sei quais são as minhas reais preocupações. Se todo o individuo for responsável, a sociedade será equilibrada”. Segue-se a conversa, com o uma das personalidades mais fascinantes do universo artístico português.

A profissão de actor ocupa a maior parte do teu tempo? E a formação?

M.S. - Ser actor não é uma profissão, é a minha vida. Não conseguiria vê-la de outra forma que não dentro da representação, incluindo claro, a formação e a direcção de actores. Em termos de formação, agora estou a trabalhar com crianças, porque defendo a continuidade e ela passa pela formação de novos públicos e futuros actores, alguns serão, outros não. Mas terão pelo menos a compreensão do que é o teatro e a representação. Estou num projecto educativo da Câmara de Lisboa, na Escola Duarte Pacheco, em Olaias, na Felipe de Lencastre, área infantil, na Querubin Lapa, em Campolide e na Mestre Arnaldo Louro, no Bairro Azul. Com o Griot, estive a colaborar com a Junta de Freguesia de Santa Catarina, aí eram adultos e também estive no Centro da Juventude do Barreiro, no Vale da Amoreira.

Não tentaste outras áreas além do teatro?

M.S. - Sim, estudei fotografia e não só. Todas as ferramentas das outras áreas me servem de complemento ao teatro. É muito mais fácil quando um actor tem conhecimentos de outras áreas, porque para determinados papeis, os conhecimentos que tem ajudam-no a fazer fluir o personagem.

Como vês o futuro para os actores afro descendentes em Portugal? Existe de facto aptidão nata para as artes nos descendentes de África?

M.S. - Não, isso é mais um preconceito, que os estereótipos nos foram incutindo. Todas as crianças terão ou não propensão conforme o grau dos estímulos que receberem, crescer numa casa onde se ouve música clássica regularmente, deixa-nos essa sonoridade, há reminiscências. No geral os africanos têm jeito para dança e música porque em casa crescem a ver dança e música, absorvem e facilmente reproduzem.

Há miúdos não africanos, cujos pais têm essa componente em casa que também têm essa versatilidade. Digo-o por experiência própria, encontro crianças de vários estratos sociais e tendencialmente os das áreas ditas sub-urbanas têm mais características em comum com os miúdos afrodescendentes ou africanos, devido à convivência, devido à proximidade entre eles. À medida que crescem essas apetências vão diminuindo ou aumentando conforme a prática. Se continuam a ser estimulados, evoluem, quando cessam os estímulos, as aptidões vão se diluindo.

Quanto ao futuro, depende, se quererão ou não investir na carreira de actores. As crianças mudam, na adolescência criam complexos… os que tiverem uma vontade intrínseca e inata continuam, os que só tiveram o teatro como estímulo familiar ou social, escolhem outras áreas. Acho que futuramente haverá mais oportunidades, porque já há um meio, do qual fazemos parte, em que vamos criando espaço para que os futuros actores negros possam exercer, não tivemos essa sorte, mas a dinâmica social é assim, as coisas acontecem gradualmente. Neste momento antevejo um futuro brilhante para os actores afrodescendentes, um futuro muito bom. 

A Comuna, Associação Cultural de Actores portugueses da qual és membro, permite-te desenvolver outras actividades, como foi a direcção de actores em Café Kwanza?

M.S. - Qualquer grupo de teatro tem que encontrar uma forma de respirar conjunta e essa forma de respirar estabelecemos como o nosso método. Há pessoas que se juntam para um determinado espectáculo conseguem que corra bem, mas a continuidade nem sempre funciona, por não haver essa forma de respirar una e nem uma linguagem que se cria devido à convivência.

Como a maior parte dos actores que se juntaram para a série Café Kwanza já se conheciam e, com algum grau de amizade, em 20 dias fizemos 7 episódios. Não se trabalha assim em lado nenhum, mas como tínhamos essa dinâmica e cumplicidade, bem como, a vontade de construir algo novo, conseguimos empenhar-nos com afinco, deixar de lado outras actividades, para investir naquilo em que acreditamos. Estamos convencidos que é o primeiro alicerce para a construção de uma grande casa.

Acho que Café Kwanza traz uma lufada de ar fresco na forma como se faz humor em Portugal, é uma perspectiva nossa, com a componente universal do que é humor, com um pequeno senão, somos nós a propor. Há portanto a vontade de cimentar algo que é nosso, de contarmos nós as nossas narrativas.

Já tens ideia de como está ser a aceitação do público da RTP?

M.S. - Até agora tenho tido um bom feedback, fala-se da série, as pessoas gostam, inclusive ligaram-me de Angola, um amigo viu na Alemanha, ligou. Café Kwanza prima pela frescura, não é o convencional. O simples facto de ser uma narrativa diferente, tem chamado a atenção. Houve quem me perguntasse se tivemos em conta quotas, ao incluir artistas de várias descendências e expliquei que apenas trabalhamos com as pessoas disponíveis para levar o argumento adiante.

Até porque, as quotas em Portugal não são uma realidade, mas em Café Kwanza há uma mistura interessante de portugueses e afrodescendentes, bem, africanos será?

M.S. - Sim, há africanos, afrodescendentes e portugueses. Mas a minha questão é esta: afrodescendente porquê? Nasceu cá é português, é português preto mas português e nós ouvimos esta palavra afrodescendente, parece uma forma de dizer: olha se calhar não pertences bem aqui, mas pronto. 

Café Kwanza, é um café do bairro, no Barreiro, poderia ser no Bairro Alto, Benfica, ou noutro sitio, nessas zonas há sempre uma pequena identidade do bairro que não se perde e, tendencialmente há um café para onde tudo converge. É o Sr Manel vai reclamar porque a filha saiu de casa ou casou com não sei quem, o Zé vai reclamar porque o patrão não paga, o Sr ou Sra da mercearia vão dizer que ultimamente não vendem porque as pessoas preferem as grandes superfícies. O Café Kwanza é isso, tentamos é criar situações que sejam ridículas, de forma que haja piada na história.

Concordas que se diga que a RTP é um gueto para os afrodescendentes portugueses

M.S. - A RTP-África devia ser mais abrangente a nível de África, porque a África não só a lusófona, devíamos ter informação de toda a África e a maior parte dos programas feitos por gente africana, não afrodescendentes que têm uma visão diferente de África Mas temos jornalistas africanos, alguns trabalham para embaixadas ou são correspondentes de jornais, temos escritores africanos, portanto a RTP-África devia ter mais documentários, programas e séries de África e não apenas dos países lusófonos africanos. É um gueto da lusofonia, pela programação actual, não se deveria chamar RTP-África, mas sim RTP para África lusófona. 

Que caminhos vislumbras para a série Café Kwanza? 

M.S. - Acho que vai acabar nas televisões africanas e não só. Há interesse de um produtor em exibi-la no Brasil. Tem haver com a qualidade, um produto quando é bom, trilha caminhos por si só. As pessoas estão ávidas por coisas novas. Estamos habituados à mais do mesmo, às séries inglesas, americanas… A Nigéria está a conquistar a África, mas não é lusófona. Café Kwanza tem como ambição chegar aos cerca de três milhões de usuários da lusofonia e não só.

Como vês o entrosamento dos actores afodescendentes com a sociedade portuguesa?

M.S. - Acho que existe um preconceito, não só na sociedade, mas no meio artístico artístico. Não podemos ter em conta que um personagem tenha a cor de quem a representa. A não ser que sejam personagens históricos, que impliquem zelar pelo que escreveu o autor.

Qualquer personagem é feito por qualquer outra pessoa, só que, infelizmente, quem dirige ou coordena as companhias, ao pensar num espectáculo não pensa nos actores negros, sejam africanos ou afrodescendentes. Não existe esse pensar de que há no meio artístico português, actores negros. Quando se pensa, tendencialmente, os papeis são característicos digamos. Para fazer o senhor da limpeza ou um pedreiro, vai-se buscar um actor ou actriz negra, como se não houvesse pedreiros brancos, e, da televisão então, já nem digo nada...Porque, sublinha os estereótipos.

Não é que esteja a salvaguardar a Comuna, mas a Comuna, permite-me experimentar um leque vasto de personagens. Por exemplo, no espectáculo que estamos a preparar agora, “Fausto”, faço de irmão de uma miúda que é branca, também acontece, mas se perguntarmos se Johann Wolfgang von Goethe escreveu para algum personagem negro, sabemos que não. Quem dirige espectáculos, é que deve ponderar sobre o leque de actores que existem na sociedade, por enquanto quem escreve e dirige tem ainda muitos preconceitos, mas acredito que, com o tempo, isso será ultrapassado.

Vejo-te como um actor internacional. Convites para cinema tens tido?

M.S. - Recentemente participei no filme, “O mar da Palha”, realizado pelo Pedro Palha. Já houve uma altura em que aconteceu mais. Hoje em dia o cinema é muito mais plástico, tem pouco conteúdo. Isto para dizer que, há um padrão em que não me encaixo, nos castings a que vou, não tenho o perfil para os personagens que querem. Primeiro, tenho esta constituição esguia, pareço um massai, em segundo, dizem-me que sou muito bonito, “não imprimes como um africano”, e eu pergunto: Mas não devia ser só pelo talento? “Ah não queríamos uma cara mais forte, mais africana. E essa é a pergunta que faço? O quê que é uma cara africana? Lá está, são os estereótipos.

Mas, houve uma altura em que me enquadrava, tenho um percurso no cinema, fiz uns quinze filmes até agora. Acredito que futuramente apareçam mais oportunidades para fazer cinema. A nível internacional trabalhei na Itália, na Alemanha, gostaria de trabalhar em Espanha, é um país e uma língua que admiro, estive a filmar no Brasil, as coisas vão acontecendo. Ao contrário de muitos actores tenho uma preocupação mais social do que artística. 

Não tenho a ambição de ser muito conhecido por isso é que estou a vontade naquilo que faço porque sei quais são as minhas verdadeiras preocupações, não quero ascenção social, há quem diga que sou "indisciplinado", no bom sentido sou, sou um anarca porque apelo para a responsabilidade do individuo, se todo o individuo for responsável a sociedade será equilibrada, apelo à responsabilização, primeiro, como indivíduos, depois como sociedade.

Falaste em responsabilidade social, em Portugal todo o profissional afrodescendente tem uma responsabilidade social acrescida. O contribuição pretendes dar para um Portugal mais diverso, mais igualitário?

M.S. - Começa mesmo por dar formação, quando numa sala há três miúdos negros que vêem que o professor também é negro, pensam: afinal também posso ser professor. Varia de sitio para sitio, quando vou a uma escola onde maioritariamente os alunos são negros, sou mais um, o quê que me singulariza? É o que trago de conhecimentos e estímulos para eles, a partilha, porque eu absorvo dali qualquer coisa e deixo qualquer coisa, com uma pequena diferença, na maior parte das vezes sou mais visível que eles, porque apareço na televisão, falo pra rádio etc…

Gosto de criar naquelas pessoas a vontade de se afirmarem. Que digam: se ele conseguiu porquê que eu não hei-de de conseguir, e no meu caso então, dizem: eh pá, ele que é rasta, com esse mau aspecto, como é que consegue? Mas depois dizem: ele fala bem, tem boas ideias. É o mais importante, mais do que o aspecto, as ideias, que são fruto de procura, de vontade de aprender. 

O grau de responsabilidade que defendo é, não sermos vazios. E se formos que o assumamos. Há aquele que diz: eh pá eu não tenho nada para dar, a não ser roubar, mas que isso seja uma coisa concreta, para permitir que o outro tenha um pôlo de comparação, e diga: aquele rouba mas pelo menos é sincero, ou: eu não quero roubar, vou seguir aquele cota que joga futebol ou o advogado. É esse grau de responsabilidade a que me refiro. Há que haver sensibilidade, na abordagem que fazemos perante o outro, porque nós não somos o outro e, sobretudo quando trabalhamos com miúdos. Estamos a preparar o amanhã, a juventude depende daquilo que estipulamos hoje, também fomos jovens e aproveitamos da nossa juventude os bons estímulos, os maus deixamos para trás. 

Em qualquer meio em que estejamos inseridos, em Portugal essa responsabilidade é acrescida realmente, devíamos estar mais nas escolas, eu tento. Devíamos ir mais aos bairros falar com as associações, com os miúdos. Algumas associações quantas vezes se deslocam aos bairros? Temos esse complexo, pelo simples facto de sermos conhecidos, já não podemos estar a conviver na Quinta do Mocho porque fica mal. Fica mal porquê? A maior parte das pessoas que têm visibilidade escudam-se, fecham-se, não têm a abertura que deviam ter. Porquê que fica mal estar sentado na Damaia, Buraca ou na Reboleira com os miúdos da minha zona? É mal porquê? É preciso formar pessoas, até para nossa salvaguarda.

 

Com a Associação Olho Vivo, tive a oportunidade de visitar prisões, na altura em que se começaram a derrubar barracas e fizeram-se realojamentos, íamos aos bairro, às prisões. Com o grupo Griot mantivemos isso, porque há miúdos que vão parar a cadeia muito novos, é preciso fazer-lhes perceber que ali não é o final, é só um período de reflexão, é preciso estimula-los para quando saírem, verem a sociedade com outros olhos.

Digo muitas vezes aos jovens que na abordagem com a polícia, devem saber defender-se. Muitas vezes, a primeira coisa que veem é “o delinquente preto”, temos que os fazer lembrar que somos indivíduos. Se me levantar a voz, falo baixo, se disparatar chamo-o à consciência e depois vou identifica-lo: diga-me quem é você, qual é a sua esquadra? O que fazem os jovens, muitas vezes é reagir instintivamente, dando-lhes razão para a agressão.

Já me aconteceu parar o carro a noite, no Bairro Alto porque estavam quatro polícias a pontapear um rapaz e ele a dizer: não fui eu. Parei o carro, podia ter levado porrada, mas cumprimentei, “ah quem é você?”. Sou jornalista, imagine que isto amanhã sai nos jornais, está certo? Quem é o chefe? Fui ter com o chefe, este mandou meter o miúdo no carro. Claro que pode ter sido espancado na esquadra, mas o simples facto de eu ter ido lá, fez-lhes pensar sobre o comportamento deles, é o que temos que fazer, levar sempre o outro à reflectir.

Já fui esfaqueado ao tentar evitar um assalto e assaltado por ser crédulo e, das duas vezes, nunca a polícia chegou tão rápido, mas na cabeça deles os assaltantes eram negros, e não eram, deu-se o contrário, pediram descrições, expliquei e foram apanhados. Por isso temos sempre que fazer essa desconstrução, levar as pessoas à reflexão e à razão. As vezes dizem-me: és mesmo um preto inteligente e eu digo: se a mim que sou o mais burro da minha tribo me chamas inteligente, imagino se convivesses com alguém da minha tribo. Porquê que temos a mania de classificar o outro ? Se calhar naquela situação, houve inteligência, para outras não haveria. Em kimbundu diz-se: “por mais esperto que sejas, hás-de encontrar alguém que te supere”, todos temos inteligência. 

Achas que é preciso levar os jovens que saem das prisões a acreditar na reintegração ?

M.S. - Aí está outra palavra que não gosto muito, reintegrar o quê? Ele cometeu como qualquer outro, foi sancionado, já pagou estando na cadeia, volta para casa. Tem que ser reintegrado em casa? E depois criam-se rótulos, que amedrontam até as pessoas. Depois é: olha aquele já foi preso. Ai é? Fez o quê? São esses rótulos e atitudes, que nos vão afastando do outro. Quando a ideia deveria ser proximidade, somos pela caridade, não pelo amor, e nisto a igreja é culpada. Se o outro é um individuo, porquê que não hei-de partilhar com ele e estimula-lo naturalmente, porquê que tenho que ter pena? Falamos de amor, mas não professamos o amor, eu professo o amor, que é olhar para o outro como sendo o outro, e respeita-lo como tal, só, para isso facilitar o criar de oportunidades para que possamos, partilhar, conviver.

Acerca do grupo de teatro Griot, do qual és fundador, que novidades e perspectivas?

M.S. - A companhia Griot surge de uma necessidade, de vários amigos, mais uma vez. Todos trabalhávamos para outras companhias mas nunca juntos, refiro-me ao Angêlo Torres, Daniel Martinho, o Matamba, sentimos a necessidade de criar um espaço onde pudéssemos experimentar as nossas próprias vontades, digamos. No príncipio trabalhamos com o Rogério de Carvalho que tem sido um grande colaborador, trabalhamos também com o Bruno Prado... Criamos um espaço onde pudéssemos fazer as nossas experiências e que nos permitisse convidar encenadores portugueses e não só, para levarem adiante os textos que nós escolhemos.

A Griot tem crescido, fez 13 anos já, há cerca de 8 anos a Zia Soares é a directora artística, que fez duas encenações brilhantes, nomeadamente “O Riso dos necrófagos e outra peça que esteve no S. Luís, “Uma dança das Floresta”, de Wole Soyinka. Griot trouxe ao panorama português novas dramaturgias, apresentou cá, autores africanos que geralmente não eram incorporados na dramaturgia portuguesa. 

As perspectivas são boas, estivemos recentemente em Milão no Teatro No´hma, Itália, fomos selecionados a XIII Edição do Premio Internazionale Teresa Pomodoro, com “O Riso dos Necrofagos. Queremos incrementar o intercâmbio com países lusófonos, com os europeus temos já várias propostas em andamento, a pandemia bloqueou-nos um bocado, mas temos boas perspectivas. Muita gente não acreditou no Griot, no passado houve tentativas do género, como o Museu do Pau Preto, o grupo Serpente, foram-se diluindo, o Griot mantém-se e tende a crescer.