Salomé Marivoet comenta Colóquio "Pensar o racismo no desporto"

by Admin
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Salomé Marivoet comenta Colóquio "Pensar o racismo no desporto"

Salomé Marivoet, foi convidada pelos Vikings a falar sobre “ A inclusão social pelo desporto através do anti-racismo”, no terceiro painel do evento e deu uma pequena entrevista ao BuÉtnico acerca das suas impressões em relação ao tema e às abordagens feitas durante o colóquio. Doutora em Sociologia tem estudado o racismo e a violência no desporto e também a inclusão social através da prática desportiva.

BuÉtnico - Qual a sua opinião sobre o Colóquio Pensar o Racismo no Desporto ?

Salomé Marivoet - Em primeiro lugar, o Colóquio "Pensar o Racismo no Desporto", realizado no passado dia 5 de Junho no ISCTE-IUL, deu evidências como o tema do racismo carece de reflexão e debate.

O 1.º Painel deu voz aos atletas portugueses pertencentes a minorias éticas sobre as suas trajectórias de carreira desportiva, o que me pareceu muito importante e a repetir em futuros eventos. O enfoque de que Portugal é um país multicultural, com cidadãos nacionais pertencentes a diferentes etnias, parece-me muito importante, apresentando-se o desporto como um espaço de excelência para a visibilidade desta realidade. O Painel sobre as "Políticas Públicas e Dirigismo Desportivo" mostrou, grosso modo, que são precárias as políticas neste âmbito, fornecendo evidências de uma grande impreparação da maioria dos dirigentes convidados na abordagem do tema. O racismo existe no desporto, tal como existe na sociedade, e necessita de ser encarado sem paternalismos, com a denúncia das suas formas, e exigindo-se meios que defendam a dignidade humana e garantam os direitos das minorias étnicas. Do 3.º Painel intitulado "A inclusão Social pelo Desporto através do (Anti)Racismo", ficou claro, que a academia tem investigado o tema mais em termos históricos do que sociológicos nos tempos presentes. Uma lacuna que deveria ser ultrapassada com estímulos públicos à produção científica sobre a realidade na actualidade.

BuÉtnico - Que conclusões gostaria de assinalar?

S.M. - Destaco o facto do Colóquio ter sinalizado que o desporto, especialmente o futebol é um espaço que,  dá grande visibilidade aos comportamentos racistas, mostrando que eles existem nas sociedades e claro está no desporto;  também se apresenta como um espaço com enormes potencialidades na prevenção e sensibilização para o problema do racismo e a discriminação étnica, quer através dos projectos de inclusão social no e através do desporto, quer através das campanhas de sensibilização, onde merece destaque a "Semana Contra o Racismo" da FARE "Football Against Racism in Europe", que desde 2001 tem vindo a promover campanhas em diferentes países, incluindo em Portugal, a cargo do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, parceiro português desta plataforma europeia.

BuÉtnico - O que acha da inclusão da disciplina Educação para a cidadania no ensino português, uma vez que já foi aceite por algumas escolas em Portugal mas não é obrigatória. Concorda que esta disciplina irá contribuir para esbater o problema do racismo e discriminação na sociedade portuguesa?.

S.M. - Concordo vivamente que a disciplina de Educação para a Cidadania deveria ser uma disciplina obrigatória na escola, onde fossem abordados de forma aprofundada os preconceitos sociais baseados nas diferenças da pessoa humana, abrindo espaço à reflexão dos alunos e o debate informado sobre a natureza dos problemas que se manifestam no dia a dia das sociedades contemporâneas.

Encontra-se uma enorme iliteracia sobre os fundamentos do racismo, xenofobia, discriminação étnica e religiosa, desigualdades de género, LGBT, etc. Se queremos construir uma sociedade mais humana, tolerante e justa, onde impere o respeito pelas diferenças culturais ou pessoais próprias da diversidade da raça humana, a única que em termos biológicos foi comprovada ‒ todos iguais, todos diferentes ‒, temos de começar a transmitir conhecimento e valores às gerações mais novas que se encontram actualmente na escola.