Prevenção e combate ao uso de drogas - A experiência de José Luís Vaz

João Paupério comunicador e produtor de áudio visual e Solange Salvaterra Pinto, ativista e empreendedora social, teceram considerações sobre o 2º livro de José Luís Vaz.
No final de Setembro, José Luís Vaz apresentou na biblioteca de Alcântara, em Lisboa, o seu segundo livro denominado, "Percurso pelos atalhos da droga-A história de um sobrevivente", que escreveu entre 2017 e 2019.
Em 2017, Vaz já tinha lançado um primeiro livro intitulado, “Toxicodependência é uma doença tratável - Como e onde se tratar”. O trabalho resultou da sua experiência enquanto toxico-dependente e das pesquisas que fez ainda em tratamento numa comunidade terapêutica.
No livro, “Percurso pelos atalhos da droga-A História de um Sobrevivente”, lançado em 2020, Luís Vaz conta a sua vida, desde a infância até a idade adulta, o gosto pelos estudos, os maus tratos às mãos do padrasto, a violência doméstica no lar e a entrada para os vícios da marijuana e do álcool que adotou quando a mãe já era alcoólatra.
Licenciado pelo ISCJS (Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais), em Criminologia e Segurança Pública, José Luís Vaz trabalhou na Polícia Judiciária (PJ) de Cabo Verde entre 1996 a 2002. Durante anos foi investigador criminal e inspetor da PJ, principalmente nas ilhas de Santiago e Sal.
Atualmente a viver em Portugal com uma bolsa de estudos do Instituto Camões, José Luís Vaz está fazer um mestrado em Políticas Públicas, no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. A sua dissertação versará as políticas públicas sobre drogas em Cabo Verde.

Desde os 13 anos que a vida deste criminologista, se tornou uma cruzada contra as drogas, que o foram cativando gradualmente. ”Acreditava que não era um fracassado, mas fui ao fundo do fundo do poço”, afirma, acrescentando que a dado momento, teve medo de usar a sua arma de serviço e entregou-a sobretudo devido aos desejos de se suicidar.
A droga roubou-lhe o trabalho, a família e a alma. “Cheguei a auto-mutilar-me e quis suicidar-me várias vezes”. Mas, o que parecia um caminho sem volta para Luís Vaz terminou bem, submeteu-se a vários tratamentos, até que compreendeu que não poderia usar drogas e fazer uma vida normal, iniciou um novo ciclo de vida.
Depois de recuperado trabalhou como formador e palestrante em matéria de prevenção e combate ao uso do álcool e outras drogas, esteve num projecto social da Câmara Municipal da Praia, para intervenção junto dos sem abrigo e toxico-dependentes.
Luís Vaz tem apresentado os seus livros em Cabo Verde e Portugal. “Quero levar a minha estória, principalmente aos jovens, às escolas e universidades, porque acredito que se soubesse o que descobri acerca da droga, com muito sofrimento, talvez não tivesse ido tão longe”.
A fazer um estágio laboral na Associação portuguesa Crescer ele afirma, “noto uma relação de confiança entre os técnicos da Crescer e pessoas toxicodependentes. Na maior parte das vezes os usuários de drogas, querem sair desse mundo, na Crescer não os julgam, não falam mal deles. Ao lidar com toxicodependentes, temos que apelar à nossa sensibilidade, demonstrar afecto, altruísmo, solidariedade e amor, só assim conseguimos trazer p’ra vida pessoas que aparentemente desistiram dela”.

Como reflexão e conclusão da tertúlia de dia 27 de Setembro, na qual demonstrou uma singular habilidade para comunicar, motivando a intervenção de muitos dos presentes, Luís Vaz, apontou a necessidade urgente de se mudarem estratégias/políticas de combate, atitudes e, sobretudo, de crenças, para diminuir a toxicodepedência.
"No caso concreto de Cabo Verde, precisamos debater e avaliar os impactos das estratégias/políticas sobre esta matéria ao longo dos anos. Perceber-se-á que acelerar, por exemplo, a implementação de uma abordagem de Redução de Risco e Redução de Danos é o mais recomendado. E isto implicará o desenho de um novo quadro legal consentâneo com as exigências desta abordagem”. Afirma o mestrando que foi entretanto aceite para um doutoramento cuja tese será o papel dos serviços sociais nas Políticas de Reinserção dos ex reclusos com problemas de uso de drogas.