É fundamental desconstruir narrativas mitológicas sobre o nosso passado colonial

by Admin
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É fundamental desconstruir narrativas mitológicas sobre o nosso passado colonial

Para a jornalista Vânia Maia, «Portugal é um país com um longo lastro racista. É fundamental que olhemos para ele e que tenhamos a coragem de o enfrentar, sem narrativas mitológicas ancoradas, por exemplo, na teoria lusotropicalista adotada pelo regime do Estado Novo». Vânia é uma das vencedoras do Prémio Diversidade Cultural no âmbito de um concurso promovido pelo ACM, que venceu com o trabalho publicado na revista Visão, "Alfacinhas dos Himalaia". Ao BuÉtnico a jornalista fala acerca da importância que teve o prémio , e tb um pouco sb o que representa o jornalismo para ela.

BuÉtnico - O que significou este prémio? Teve alguma utilidade prática?

V.M. -  É sempre muito motivante ver um trabalho que consideramos marcante ser distinguido. Não há melhor utilidade prática do que a motivação trazida pelo reconhecimento. É uma enorme honra, e uma tremenda responsabilidade, ver o nosso trabalho reconhecido. 

A reportagem Alfacinhas dos Himalaias teve como ponto de partida o facto de, a cada três dias, nascer um bebé filho de mãe nepalesa na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa. Um dado que despertou a nossa curiosidade, já que não vivem assim tantos nepaleses em Portugal – o Consulado Honorário do Nepal estima que não sejam mais de 20 mil. 

No entanto, em 2017, esta foi a segunda comunidade estrangeira com mais nascimentos na MAC. Este trabalho levou-nos a procurar os motivos desta elevada natalidade na capital e a traçar o retrato dos nepaleses que vivem em Lisboa. 

A generosidade de todos os protagonistas da reportagem, que se mostraram sempre disponíveis e satisfeitos por partilharem as suas histórias, tornou este trabalho particularmente especial. 

Fui sempre muito bem recebida e, confesso, foram muitas as iguarias do Nepal que provei. Apesar das dificuldades referidas pelos entrevistados, que foram referidas no texto, este é um exemplo muito feliz da integração dos imigrantes que chegam a Lisboa.

BuÉtnico - Vai continuar a concorrer?

V.M. - Não sei se voltarei a concorrer, mas sei que continuarei a lutar por escrever sobre os temas relacionados com as migrações. Tendo em conta o contexto atual, estando o discurso anti-imigração a crescer em toda a Europa, é fundamental que contribuamos para desmistificar preconceitos. Só assim conseguiremos combater o discurso de ódio com eficácia. É imperioso impedir que a imigração seja manipulada no sentido de alimentar o medo das pessoas em relação àqueles que a veem como sendo o Outro.  

BuÉtnico -  O jornalismo é uma paixão? Desde quando e como tem exercido?

V.M. - Sim, o jornalismo é uma paixão. Tive algumas experiências pontuais, nomeadamente na rádio, mas é na revista VISÃO que tenho vindo a aprender tudo o que sei. Atualmente, pertenço à secção de Sociedade, mas já escrevi para todas as outras. 

O jornalismo apaixona-nos pelas histórias com as quais nos cruzamos e, também, pela aprendizagem permanente. Mas, no fundo, tudo se resume ao desejo de dar voz a quem não tem, ou melhor, tem, mas não é ouvida. E, claro, à responsabilidade de contribuir para a fiscalização do cumprimento de todos os princípios democráticos. Não há democracia forte sem imprensa forte.

BuÉtnico - Conte-nos um pouco da sua trajetória nestas lides.

V.M. - Comecei na rádio, mas depois de frequentar o CENJOR tornou-se evidente que o futuro passava pela escrita. 

Tive a sorte de estagiar na revista VISÃO, uma oportunidade que aproveitei ao máximo e que alterou o rumo da minha vida, já que é na VISÃO que continuo a escrever. Recentemente, vivi uma das experiências mais marcantes ao serviço do jornalismo. Juntamente com o fotojornalista Luís Barra, cobri os efeitos da devastação causada pelo ciclone Idai na região da Beira, em Moçambique. 

Outro trabalho muito marcante foi uma reportagem em Chernobyl, cenário do maior desastre nuclear de sempre, onde procurámos perceber quais os efeitos da radioatividade que persistem na saúde dos sobreviventes. 

BuÉtnico - Segundo o ACM a maioria dos pedidos de reagrupamento familiar feitos entre 2015 e 2016 foram da comunidade nepalesa. Desde que fez a reportagem “Alfacinhas dos Himalaias” tem-lhes seguido o rasto?

V.M. - Apesar de não ter voltado a fazer uma reportagem sobre os nepaleses que vivem em Portugal, confesso que estou sempre atenta às notícias que vão surgindo na comunicação social. Recentemente, soube-se que o número de imigrantes nepaleses em Portugal triplicou, nos últimos quatro anos. Os dados oficiais do SEF indicam que, em 2014, eram 3 544 pessoas mas, no ano passado, eram já 11 489.  

BuÉtnico - Na sua perceção, é uma comunidade que está de passagem ou para ficar por Portugal?

V.M. - Não tendo realizado um estudo académico sobre o tema, baseio-me nas palavras do alto-comissário para as migrações, Pedro Calado, que não vê Portugal a funcionar como uma simples plataforma giratória. 

O facto de os nepaleses criarem os seus negócios e de terem filhos no País contribui para ganharem fixação. 

Mas claro que Portugal também pode funcionar, em alguns casos, como uma porta de entrada no espaço europeu, isso mesmo afirma o investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Pedro Góis.

BuÉtnico - Nota noutras comunidades estrangeiras a particularidade que refere no seu texto sobre os nepaleses, a solidariedade entre eles ou uma forte “rede de entreajuda”?

V.M. - Não tenho dados objetivos para fazer essa análise. Mas é sabido que, habitualmente, existe uma forte rede de entreajuda entre os imigrantes. No caso dos nepaleses, deparei-me com a particularidade de muitas pessoas irem chamando os seus familiares para Portugal. Lembro-me do chefe Tanka Sapkota, com dois filhos já nascidos em Portugal, que trouxe entre trinta a quarenta familiares para o País. Acredito que se passe o mesmo noutras comunidades.

BuÉtnico -  É uma comunidade que cria os seus próprios postos de trabalho, mais do que outras?

V.M. - As estatísticas têm mostrado que os imigrantes são mais empreendedores do que os portugueses. 

Segundo o último Censos, quase 20% criaram o seu próprio emprego, enquanto apenas 17% dos portugueses são empresários. Os chineses são, habitualmente, os mais empreendedores. De acordo com os dados mais recentes, 42% dos chineses residentes em Portugal são empregadores. 

BuÉtnico - Durante a cerimónia de entrega do prémio referiu a questão do racismo em Portugal. Qual é a sua opinião em relação a este assunto?

V.M. - Portugal é um país com um longo lastro racista. É fundamental que olhemos para ele e que tenhamos a coragem de o enfrentar, sem narrativas mitológicas ancoradas, por exemplo, na teoria lusotropicalista adotada pelo regime do Estado Novo.

Um passo fundamental é olhar para o nosso passado colonial e reconhecer que foi tão violento quanto o de outros países.

Felizmente, creio que, apesar de muito tardio, esse processo começa agora a ser feito, graças aos muitos afrodescendentes que fazem ouvir a sua voz. E também a comunicação social começa a desempenhar um papel importante ao dar-lhes eco. 

Não é apenas em relação aos imigrantes que todos temos o dever de acolher – não de praticar uma tolerância caritativa, mas de ser genuinamente hospitaleiros. Também é fundamental que todos sejamos capazes de garantir que nenhum português se sente estrangeiro na sua casa.