Entrevista com Pedro Severino-Realizador de Cinema
Pedro Severino formou-se em jornalismo, queria ser escritor, mas acabou usando o cinema como caneta, tornou-se um roteirista e diretor cinematográfico comprometido com “um cinema ao serviço do pensamento democrático e de transformação social”, afirma o realizador.
Em entrevista ao Jornal BuÉtnico Pedro fala-nos da sua mais recente longa-metragem, da presença no FESTIM e das motivações que norteiam o seu ativismo pelo direito à cidade e contra o desalojamento das populações do Recife, em nome de um desenvolvimento que,“beneficia muito poucos”. Com o governo de Lula da Silva o realizador acredita que, “haverá a hipótese de fazer uma reformulação das políticas públicas, trazendo de volta o que funcionou e pensando em como intervir no digital”.
Como ativista você participou da realização de muitas produções audiovisuais engajadas na luta pelo direito à cidade no Recife. Que tipo de ativista é Pedro Severino?
Sou um ativista que tenta usar o audiovisual como forma de intervenção e de impactar alguns temas. O tema mais próximo da minha prática ativista é a luta pelo direito à cidade. É um direito não tão conhecido como outros direitos humanos, mas é um direito coletivo, que visa pensar a cidade como uma dimensão democrática, como uma forma de produzir espaços de diferença, de acolhimento e de bem-estar.
Moro em Recife, uma cidade, como várias cidades do mundo, onde a especulação imobiliária domina o planejamento urbano. Isso afeta principalmente as populações mais pobres, a classe trabalhadora. Quando há um processo de gentrificação muito grande, a especulação imobiliária consome um espaço que era ocupado pelas camadas populares, e isso com desalojamento, deslocação de pessoas, com violência, com um processo muito duro, que envolve, às vezes, a conivência do poder público.
Lá em Recife a partir dos anos 2010, surgiu um movimento chamado Ocupe Estelita https://www.youtube.com, que, surge a partir do projeto Novo Recife, visando a construção de um condomínio de luxo numa área pública no centro histórico da cidade, então, houve um movimento de ocupação para chamar a atenção e tentar impedir a implementação desse projeto, com isso instaurou-se um debate público importante, tentando pensar um outro horizonte de cidade. Participei nesse movimento através do processo de pensar o cinema coletivo, um cinema de urgência, que entrasse nessa disputa mediática sobre a ideia do direito à cidade.
O filme Paraíso Selvagem passa por essa temática. É um filme documental também?
Sim. Esse tema atravessa todos os meus filmes, é pensar na dimensão da desigualdade social. O Brasil é um país muito desigual e essa desigualdade muitas vezes, opera por camadas, por diferenças que se expressam no racismo estrutural, muitas vezes no racismo regional. O nordeste do Brasil é uma região muito pobre no sentido económico, mas é um lugar de muita luta, de muita cultura. Acho que as soluções mais viáveis e possíveis para o país surgem a partir desse lugar, do norte e do nordeste, como lugares que estão inaugurando uma forma mais coletiva de vida. Os meus filmes são muito gestados nesse lugar, mas gosto também do cinema de género e de horror.
Ao longo do tempo fui tentado fazer um encontro entre as dimensões sociais e as dimensões estéticas, do film noir, do thriller, do suspense. Paraíso Selvagem é esse encontro, pensar a dimensão do território, das populações que lá vivem e sentem o impacto de um projeto de desenvolvimento desigual, é pensar no horror social que isso representa. Um horror que acontece muitas vezes, sob a falsa ideia de um El Dourado, de um avanço económico, mas um avanço que vem para muito poucos, no filme tentei lidar com esse real, do projeto portuário territorial da SUAPE, que ocasionou um movimento de defesa das populações e contra ele se levantam muitas vozes, https://forumsuape.org.br
Em que área fez a sua formação e o que fez antes de fazer cinema ?
Sou formado em jornalismo, comecei pela dimensão da escrita e de querer narrar acontecimentos reais, da política, comecei por querer ser escritor, era o meu sonho, continuo a fazer isso, mas usando o cinema como caneta. Depois da graduação em jornalismo, fiz um mestrado em realização áudio visual e aí fui ampliando o meu engajamento no campo do áudio-visual, pensando projetos autorais, coisas de ficção de escrita junto com projetos mais coletivos e num cinema ao serviço de um pensamento democrático e de transformação social mesmo.
Fale-nos um pouco acerca do que retracta o filme Paraíso Selvagem?

É um filme que se alimenta da situação que provocou o desalojamento de muitas populações, provocou um impacto ambiental muito sério, um impacto urbano gravíssimo, alguns dos municípios onde filmei, como o Cabo de Santo Agostinho, chegou a ser o município mais violento para um jovem negro brasileiro, devido à falta de planejamento desse projeto urbano de “desenvolvimento”.
Fui analisando, entrei em contacto com os grupos políticos organizados, por exemplo o Centro de Mulheres do Cabo, que é uma organização política muito importante, trabalha em várias áreas, como questões de género, de raça e de cultura popular. Fui pensando também pelo lado da narrativa de um imaginário, de horror social, mas associado a um horizonte em que os personagens não sejam definidos apenas pela dor.
O personagem principal faz um mergulho em busca das reminiscências do irmão, mas eu quis que fizesse também um mergulho interior, em si própria, para poder dar um outro significado ao trauma e a dor, encontrando uma possibilidade de coletividade, uma ideia de identidade que está no envolvimento, numa cultura que dá força, que cura, que expressa mais união entre as pessoas, dada a necessidade de um re-posicionamento no mundo.
O encontro da personagem principal com as suas memórias e com a memória coletiva fazem-na pensar em que horizonte é esse que estamos perseguindo.
O roteiro desse filme foi sendo construindo também pensando nisso, em personagens que têm essa vivência real, o Brasil é um dos países onde são assassinados mais ativistas ambientais, um dos países mais violentos para com os ativistas ambientais.
Portanto, apesar de eu falar disso ficcionalmente, essas pessoas existem, existiram, e lutaram. Muitas dessas lutas são soterradas por uma imagem de um lugar que supostamente vai salvar aquele território, quando isso, na verdade, apenas tem muito de propaganda. Nesse filme, quis fazer pensar que a vida de quem luta atravessa o tempo e fá-lo a partir de memórias que podem ser uma ferramenta para quem está lutando no presente. Portanto a ideia foi pensar no passado transversalmente ao movimento que trás para o presente, e nas possibilidades que pode trazer, para uma aplicação do que fazer agora, actualmente.
Só há um mundo
As histórias que o Pedro conta são essencialmente brasileiras ou mundiais?.
Penso que o global é o local sem muros, se pensamos a partir de onde estamos tentando enxergar que muros são esses. Porque muitas vezes são muros simbólicos, as vezes físicos mas, a própria fronteira entre países é uma ficção, é uma criação, há até um termo, uma definição política dos anos 60/70, segundo a qual o Brasil é parte do terceiro mundo, pensando que havia um segundo mundo, o bloco socialista e um primeiro, o bloco capitalista/ocidental, só que, hoje, eu fico pensando: só há um mundo e tem-se falado muito no fim desse mundo, e esse fim instaurado, parte do primeiro mundo, que deveria ser hierarquizado com algo positivo, mas não o é, pois é esse primeiro mundo que está nos devorando. Então acho que pensar esses mundos locais, sem muros, é uma forma de falar globalmente.
Estou sempre nesse trânsito, falando a partir do nordeste do Brasil mas tentando pensar nas conexões, é preciso quebrar os muros, mesmo que sejam os do imaginário.
Diz que ao fazer filmes foi utilizando alguns conceitos surgidos na prática e no desejo criativo. Pode nos falar um pouco dos conceitos “gesto vitalizante” e “memórias-presente?
Sim, fui desenvolvendo no trabalho de criação ao longo de vários filmes, gosto de criar essas noções porque me vão ajudando a materializar sentimentos criativos, certas sensibilidades. Pensei no gesto vitalizante como o gesto que faz uma intervenção num campo onde, talvez as imagens sociais levem a um caminho fatalista, só de dor e sofrimento se essas imagens existem ou estão circulando, na Mídea e na história do cinema também, já são imagens que geram estereótipos e estigmas principalmente para quem sofre a violência social. Como é que a gente desloca esse imaginário ? Como é que a gente quebra essa expetativa já trágica? a isso é que chamo de gesto vitalizante.
Por exemplo em Paraíso Selvagem havia situações em que sentia que a narrativa estava a caminhar para uma violência contra um corpo negro por exemplo, sentia que essa imagem já estava na cabeça de quem assiste, porque já foi muito visto, então penso que é o momento de desviar e criar uma outra possibilidade para o personagem. Isso acaba por me guiar na forma de escrita do roteiro e de pensar o filme.
Para fazer pensar a racialidade no filme, reconhecendo o meu lugar de branquitute que é muito forte no Brasil e isso também coloniza a nossa mente, pela experiência social, então como deslocar os papeis sociais dentro da tela? Como pensar personagens para a branquitute, também nas suas contradições e complexidades, porque se reduzirmos os personagens aos estereótipos, também não enxergamos as violências subtis que ocorrem. Fazer pensar, por exemplo que outros corpos como os negros, também podem ocupar lugares de poder e lugares contraditórios no sentido de classe.
Um dos personagens poderosos em Paraíso Selvagem é um negro, o que me admirou...
Pois é, pensei em qual seria o olhar, digamos de um homem com poder, que trabalha com especulação imobiliária, uma espécie de um neo-coronel branco, se olhando num personagem naquela situação, acho que mesmo que fosse crítico, poderia haver até um certo prazer em se enxergar naquele personagem, pensei: e se colocar um personagem não branco para gerar uma complexidade, uma contradição que mecha com o nosso olhar. O gesto-vitalizante passa por aí.
Em relação à memória-presente, acho que tem a ver com uma noção de que o tempo é cíclico e as coisas se repetem, há uma máxima que diz que: a violência primeiro acontece como tragédia, depois como farsa, no sentido político, nos círculos de golpes, autoritarismo, fiquei pensando: será que se fica só por essa lógica meio binária, ou será que se a gente pensar no tempo como uma ferramenta mais ativa. Porque no cinema é possível repensar o passado, dar-lhe um novo significado, pode ser re-escrito, re-imaginado e isso transforma e potencializa o agora.
O filme Paraíso Selvagem foi aprovado em 2016 e lançado em 2022, nesse período, os roteiristas do Brasil, meio que enlouqueceram, primeiro foi o golpe que derrubou a Dilma Rosseff, depois a ascensão da extrema direita, com uma pauta anti-Brasil, a extrema direita é contra a própria ideia de brasilidade, então eu queria fazer um filme que se conectasse com o agora, mas foi um esforço grande, as mudanças foram demasiado inesperadas, aí o conceito de memória-presente, ajudou-me e permitiu fazer isso, pensar historicamente o passado, mas com a vivência do agora.
“Adoro começar um filme pensando a música do zero”

Qual a sua relação com as bandas sonoras?
Adoro música, sou uma avido consumidor com um interesse especial pelo jazz e em Pernambuco está a acontecer um movimento de renovação do jazz, com músicos que fazem uma espécie de integração entre outros géneros.
Há um género muito forte no Nordeste, principalmente em Pernambuco, que é o frevo, que se escuta muito no carnaval. Mais recentemente foi criado um outro sentido para esse género, no campo do jazz. São grandes bandas, com muito metal e uma nova geração pegando nisso e traduzindo para um experimentalismo, como o Amaro Freitas, uma grande revelação do jazz, um pianista com imenso talento, pernambucano e recifense, que está rodando o mundo.
Eu acompanhava o seu trabalho, pedi-lhe para fazer a música original do filme, disse que nunca tinha feito isso, o que eu adorei, porque queria muito acompanhar de perto essa experiência, foi muito gratificante, um trabalho de muito aprendizado, por ter que investigar o som junto com ele.
Gosto muito de colocar a música para os meus filmes como uma camada quase visual, como se pudesse criar uma fisicalidade, e ser uma presença do filme, o Amaro Freitas usa muito isso, sons de piano preparados, sons de objetos etc., o que cria uma dimensão do piano de vibração, de impacto, de ruído, esse ruído era parte da paisagem interior do personagem.
Então o Pedro trabalha a música para o filme? Mas sempre?
Totalmente, sempre foi assim. Inclusive há a sensação de que algumas coisas se repetem enquanto a gente vai fazendo filmes e no trabalho artístico. Adoro começar um filme pensando a música do zero, sem nenhuma ideia pré-concebida, vamos construindo a música conforme o filme vai surgindo e isso as vezes faz com que tenhamos que apagar coisas, as vezes vamos por um caminho, mas durante o filme vou mudando o caminho. Aconteceu no filme Paraíso Selvagem, foi uma loucura, fizemos duas vezes a música. Fizemos uma primeira vez, eu e o Amaro e amamos, comemoramos, ficamos super felizes, nos abraçamos dizendo: conseguimos e foi super rápido.
Só que, no processo de montagem e eu penso sempre no processo de montagem como uma pintura, em que damos uma primeira mão de tinta, mas as vezes tem que se esperar secar e ser preciso outra camada de tinta por cima e outra e outra. A tinta que fica na base, funcionou para criar as cores da superfície mas quase não a vemos. Com a música acabou sendo assim, tivemos que a refazer toda, mas queríamos dar-lhe a vida do filme, fazer essa integração.
Já nos pode revelar seus próximos projetos ?
Sou muito apaixonado pela música, pelo jazz em particular e por acaso estou trabalhando em dois documentários musicais. Estou a começar um filme documental sobre um grupo de samba reggae, chamado Lamento Negro, que tem uma grande importância histórica porque está na génese de um movimento musical cultural pernambucano chamado Manguebeat, que renovou a música brasileira, porque junta elementos da música tradicional, da cultura popular, como o maracatu, o afoxé, o cocô, com o hip hop, o rock e ritmos internacionais. Esse grupo, faz um trabalho numa periferia de Recife que é Peixinhos, um bairro muito pobre, onde estão as ruínas de um matadouro público, que hoje se tenta repensar como um berço de cultura, mas com muitos problemas, porque está muito abandonado, esse grupo faz um trabalho musical, mas que é também de afirmação da negritude e reflexão sobre toda essa rede cultural afro que projeta cultura, cidadania, tecnologias sociais. Eles trabalham nesse território e estou a fazer um filme sobre eles.
O outro filme é sobre essa nova cena do jazz em Pernambuco, que tem Amaro Freitas, tem o Henrique Albino, a Sorama, há várias figuras nesse processo que está em ebulição.

Você diz reformulação do jazz ?
Sinto que sim, é como se fosse uma projeção com várias camadas, se a gente pensar, Pernambuco, tanto tem a dimensão do frevo, como uma pessoa como Nana Vasconcelos, uma referência mundial da música, um dos maiores percussionistas que existiu, que tocou com grandes nomes internacionais.
Estou a fazer uma genealogia, pensar na história do jazz à partir de Pernambuco, até aos dias de hoje, e, quem sabe…o quê que isso projeta para o futuro.
Quais são as suas expectativas em relação às políticas públicas para o cinema, na nova era do Lula ?
Com o governo Lula estamos retomando o país no sentido mais positivo que o Brasil pode ser, um país que pensa cultura, diversidade, pensa o meio ambiente, e que tem uma capacidade de diálogo que foi reduzida pela extrema direita, a partir de uma lógica muito violenta, de concentração de renda, de supremacia da branquitute, uma lógica anti ciência, na verdade antipopular. Com o retorno de Lula acho que temos um horizonte muito positivo, foi o melhor presidente da história do Brasil sem dúvida, mas foi sobretudo alguém que pensou muito no áudio visual. Durante as suas gestões implementou-se o projeto de desenvolvimento económico do áudio visual.
As políticas públicas pensadas nessa época re-estruturaram toda uma teia produtiva que gerou, emprego, tecnologia e projeção do Brasil no mundo e numa indústria que não polui. Isso sabotado tanto pelo governo de Temer quanto de Bolsonaro e penso que haverá uma retomada desse projeto. O desafio agora é pensar em como avançar, também no digital, isso alguns países já estão fazendo, pensando nas plataformas de streaming com a intervenção da política pública, para que parte do dinheiro extraído do Brasil, volte para a própria atividade económica do audiovisual.
Fez-se isso nos primeiros governos de Lula e com a Dilma, a partir da televisão, dos canais de TV por cabo, só que agora acho que precisamos de atualizar essa dimensão para as plataformas das megacorporações cujo presença é incontornável, principalmente depois da pandemia de Covid que mudou o condicionamento do olhar Acho que é preciso pensar nisso politicamente e de forma pública, essas plataformas estão explorando o Brasil economicamente, então precisam de dialogar com a coletividade, quer dizer continuar a fazer cinema brasileiro, continuar a consumir o cinema do mundo mas não criar novas concentrações de imaginários, que existem hoje.
No Brasil os filmes americanos ocupam 85% das salas de cinema, porque se desfez uma política de cota de tela que havia no país, que chegou a permitir 20% de ocupação dos por filmes brasileiros, era pouco, mas atualmente estamos em 5% ou menos, portanto sem política pública ficamos reféns de uma lógica corporativa dessas megacorporações de cinema e isso não é bom para ninguém, nem para a democracia, nem para o cinema, nem para o mundo.
Está ser preparada a lei Paulo Gustavo, que vai distribuir recursos para todo o Brasil, foi pensada de emergência, durante a época do Covid, em que muitos trabalhadores da cultura ficaram sem trabalho. Acho que agora devemos fazer uma reformulação das políticas públicas trazendo de volta o que funcionou e pensando em como intervir no digital.
O fluxo de dinheiro feito por grandes plataformas digitais é muito alto, é um dinheiro que está sair do país, o que fica é muito pouco pois não há tributação específica para reter esse dinheiro, é um volume de dinheiro tão grande que a tributação pode ser pequena, como foi feito na Coreia do Sul por exemplo, têm uma cota de tela muito maior e toda a atividade económica que lida com o audiovisual tem um imposto que alimenta a própria atividade, por isso eles têm um parque tecnológico, têm talentos que se renovam porque há uma política pública e é um país extremamente capitalista. Penso que o Brasil tem potencial, tem inteligência que possibilite impulsionar ainda mais a produção cinematográfica.
"A diferença entre produzir curtas ou longas metragens é poder escolher entre o problema de cem mil ou o problema de um milhão".

Os projetos do Pedro Severino têm tido suporte do estado brasileiro?
Todos os meus primeiros trabalhos foram feitos a partir de fundos públicos, tanto geridos pelo Estado de Pernambuco como geridos nacionalmente. Para produzir os filmes de maior militância e ativismo encontramos outras formas, formas colaborativistas, financiamentos coletivos, ou as vezes apenas cooperação.
Gosto muito de pensar na teia produtiva, fazer cinema não é apenas de fazer filmes, é fazer festivais, crítica cultural, pesquisa, preservação da memória audiovisual, é dar aulas, formar e é também mercado, mas mercado como consequência. Acredito que quando fortalecemos esse eco-sistema, ele se torna mais dinâmico, inclui mais pessoas, gera mais benefícios e maior criatividade.
Os seus trabalhos circularam em festivais como os de Clermont-Ferrand, Indielisboa, Cartagena, Havana, Kinoforum, Slamdance Film Festival, Festival do Rio e Brasília e outros. O que representou o Festim para você, tem viajado muito com os seus filmes?
Estou feliz com esta presença no Festim, para mim o prémio é poder estar aqui. A conexão dos países que falam português é intercontinental, envolve países de África, Portugal na Europa, Brasil na América do Sul, e mais Timor, há um potencial muito importante nesse encontro de cultural que já existe na prática mas há também uma vontade que o grupo de realizadores que se encontrou no Festim deixou expressa na denominada “Carta de Lisboa”, nela expressamos a necessidade de pensar em como fortalecer os vínculos entre os países de língua portuguesa, como aprimorar esses vínculos no audiovisual de maneira a que possamos inovar e fazer coisas que ainda não surgiram. O Festim é uma ferramenta importante para fomentar essa cooperação no meio audiovisual.
O meu filme exibido no Festim, está circular no Brasil, já esteve em diversos festivais, o mais recente foi o Festival Guarnicê de Cinema, o Festival mais antigo do Brasil, realizado em São Luís do Maranhão, ganhamos sete prémios, melhor direção, música etc. Começamos a caminhada internacional aqui no Festim, está na mostra competitiva do Salento International Festival Film, na Itália e acho que terei algumas novidades em breve.
Envolver atores consagrados é uma das condições ao escolher os actores? Suponho que não tenha sido fácil ter Zezé Mota no elenco ?
Não foi difícil. De facto Zezé Mota é um ícone do cinema brasileiro mas ela é muito ativa, gosta muito do que faz, e tem muita disponibilidade para trabalhar e fazer coisas novas. Já conhecia o cinema feito em Pernambuco, quando a contactamos, interessou-se de imediato e foi possível negociar, já que a agenda dela é muito apertada. A sua prestação naquele personagem foi importantíssima, porque é uma pessoa com muita experiência e sabedoria. De certa forma houve um encontro entre a experiência de vida da Zezé com a personagem Nana, em universos totalmente diferentes, mas a Zezé Mota é muito engajada, é uma militante da luta antirracista, tem uma presença importante no cinema brasileiro, foi uma felicidade trabalhar com ela.
E com Flávia Cavalcanti que faz o personagem principal?
Ela está se tornando talvez, um dos maiores talentos da nova geração de atores brasileiros, tem feito cinema, televisão, séries. Na verdade pensei estrategicamente em atores, não apenas pela sua visibilidade ou ligação que têm com o público, mas também pela sua sensibilidade. Penso nos elencos sempre na perspetiva de envolver essas duas camadas, o posicionamento político, dos atores e a sua própria experiência de vida, há atores não muito conhecidos que também são mestres no seu ofício. Mas o encontro de sensibilidades foi algo muito bonito e muito importante para o filme Paraíso Selvagem.
Como você vê a diferença entre fazer curta-metragens, que foi o seu começo, com o fazer longas-metragens ?
Fiz e continuo fazendo muitas curtas-metragens, acho é um lugar de experimentação, de liberdade total, porque é um formato não muito visado comercialmente, logo permite-me inventar linguagens, para mim, na linguagem cinematográfica é como uma fonte de inovação.
Nas longas há outros desafios de produção, requerem maior gestão financeira, gestão estratégica no sentido comercial, maior gestão de pessoas, mas costumo dizer o seguinte: ao fazer cinema no Brasil e no nordeste do país, sempre temos que encarar problemas, nas curtas não muito caras, temos uns problemas e nas longas outros. Podemos ter um problema de cem mil, mas não é por ter um milhão para uma longa-metragem que resolvemos os problemas, não, haverá outros problemas.
É uma escolha: você quer o problema de cem ou o de um milhão? Mas gosto de pensar que fazer filmes é também viver experiências de transformação. Que seja não apenas enfrentar desafios mas produzir conhecimento, mas um conhecimento coletivo, que motive a transformação social.
FILMOGRAFIA Carnaval inesquecível (2007) São (2009) Canção para minha irmã (2012) Rodolfo Mesquita e as monstruosas máscaras de alegria e felicidade (2013) Loja de répteis (2014) Todas as cores da noite (2015) Corpo oco (2020) Fim de semana no paraíso selvagem (2022)