STOP MGF - Sadia Ahmed - Uma menina mutilada nunca mais fica como Deus criou

by Admin
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STOP MGF - Sadia Ahmed - Uma menina mutilada nunca mais fica como Deus criou

Uma vez cortado o clítoris não se pode reconstruir

“Não sinto vergonha porque não tive escolha”

Sadia nasceu em Mogadíscio, Somália, de onde saiu no auge da guerra civil, em 1992. Viveu na Itália, e acabou por se estabelecer no Reino Unido. Em Londres estudou Contemporary Media Practice na Westminster University, onde se graduou (BA), e desde então ocupou vários cargos em media, cinema e ONGs locais, abordando questões que vão desde a exclusão social a MGF (Mutilação Genital Feminina), passando por direitos humanos. 

Foi investigadora e consultora do primeiro documentário sobre MGF  no Guardian Films (https://bit.ly/2FMFUpp), trabalhou no “Men’s Project – MGF” da ONG internacional Daughters Of Eve, com o objectivo de consciencializar ambos os jovens e adultos britânicos-somalis sobre os danos físicos e psicológicos causados a meninas e mulheres submetidas a MGF.

O seu registo em vídeo do depoimento de duas jovens sobreviventes de estupro na Somália foi mostrado como parte do evento de sensibilização para a diáspora e sociedade civil somali na conferência Somália-UK organizada pelo Foreign and Commonwealth Office - Reino Unido. Sadia foi entrevistada (https://bit.ly/2sCvscA) pela fairplanet.org (sob anonimato) sobre a sua paixão em dar voz às sobreviventes de violência contra mulheres e meninas na Somália.

 

BuÉtnico - Já ouviu dizer que há quem faça a MGF como uma ato fictício usando sangue de animais e fingindo o corte do clítoris apenas para cumprir o ritual?

S.A. – Não nunca ouvi falar disso, mas a MGF tem muitas estórias místicas que as pessoas inventam, o que ouvi dizer é que a religião muçulmana tem uma passagem em que diz que é permitido fazer-se um corte para o clítoris sangrar apenas, mas não sei se é de facto verdade.

BuÉtnico - A MGF acontece mais nos países muçulmanos não?

S.A. – É outra ficção. No mundo ocidental acham que só os muçulmanos a praticam mas tenho amigas cristãs que foram mutiladas, no Egipto por exemplo, onde uma grande parte da população é cristã também há um nível acentuado desta prática, a Eriteia e a Etiópia onde a maioria é cristã, a percentagem de muçulmanos é baixa, uma grande maioria das meninas tem sido submetidas à MGF, portanto há ainda a Nigéria, a Serra Leoa onde a maioria é cristã e aí também as mulheres são submetidas à MGF.

Portanto isso de dizer que são só os países muçulmanos temhaver com o que diz o autor Edward Saidao falar de orientalismo, tem haver com o facto de serem coisas que acontecem mais aos outros, não as conhecemos por isso são sempre de outros, outras culturas fazem, outras pessoas, outras religiões fazem, quem não vive essa realidade tem a tendência de ficcionar.

BuÉtnico - Em Portugal já se faz a reconstrução do clítoris?

S.A. - A MGF tem vários tipos, Portugal tem na sua comunidade de africanos mais cidadãos dos países de Língua portuguesa, onde este problema pouco acontece, excetuando a Guiné Bissau onde eles praticam a MGF tipo 2 que é menos complexa, o corte não é tão severo. No meu país, Somália, a MGF que se pratica é a do tipo 3, em que cortam tudo, os lábios inferiores também. 

Sei de um caso em que a pessoa está a espera de ser operada e que saiba cá em Portugal não é possível ainda, os portugueses ainda estão a reunir os seus melhores cirurgiões para tentar fazer essa operação que é tida como uma cosmética, sei também que na Amadora há uma clinica onde os enfermeiros já conhecem o problema e são capazes de detetar a MGF.

Em Portugal há muitas mulheres vítimas da excisão mas não sei de muitas que queiram fazer uma infibulação ou reconstrução, porque, de maneira geral, as mulheres excisadas não querem falar sobre isso.

BuÉtnico - Na Inglaterra faz-se a reconstrução do clitóris?

S.A. - Uma vez cortado o clítoris não se pode reconstruir, na Inglaterra operam mas é uma operação como que cosmética, que tenta fazer com que a vagina de uma mulher pareça o mais natural possível, mas é impossível voltar a colocar como Deus criou, não fica igual, mas fica melhor do que quando a mulher está mutilada. Na Inglaterra várias clínicas, mesmo em Londres fazem essa operação cosmética, porque uma vez cortado o clítoris não se pode reconstruir operam, mas a população africana lá é maior e também é um país que investe mais na saúde, mais poderoso economicamente em termos de saúde pública.

BuÉtnico - A prática da MGF está intrinsecamente ligada a religião?

S.A. - Não creio, tem haver com a religião, com a cultura também mas essencialmente tem haver com o machismo que impera em algumas sociedades, porque é uma forma de submeter a mulher, é uma forma de patriarcado muito direcionada à mulher. A ideia de mutilar visa retirar à mulher o prazer do sexo o que vai inferioriza-la de alguma forma, por isso poucos homens combatem esta prática, preferem aceitar a responsabilidade do que acontece. Precisamos de mais homens a confrontar a questionar e a combater a MGF, dizendo que não pode acontecer.

Na Europa mesmo, há muitas crianças que são levadas para os seus países de origem para serem submetidas a MGF, logo, é um problema dos países onde vivem essas comunidades e não só dos países de onde são originárias.

BuÉtnico - Conheces muitas mulheres vítimas de MGF?

S.A. - Sim, conheço e estou a criar um grupo de apoio de sobreviventes da MGF, estou mais duas mulheres, mas acredito que assim que tivermos um espaço para reunir aparecerão muitas mais porque elas também conhecem outras e acho que passando a palavra umas às outras encontraremos muitas mais. Mas ainda não encontrei uma sobrevivente que fale dessa questão abertamente, com firmeza e força no seu combate, algumas mulheres falam reconhecendo que foram submetidas mas não existem líderes que adotem o combate como causa e admitindo que são sobreviventes, são muito poucas as mulheres que o fazem.

BuÉtnico - Que tipo de trabalho esse grupo vai desenvolver?

S.A. - Dar apoio no sentido de encorajar as pessoas a falar sobre isso, dar a conhecer também, acredito que assim que começamos a falar sobre o problema nos sentimos empoderadas, com o direito de combater a MGF. Fala-se de vítimas da MGF porque as testemunhas não se apresentam como sobreviventes, quando abordarem o problema as vítimas deixarão de ser vítimas e passarão a ser sobreviventes, porque têm consciência do que lhes aconteceu e ao assumir e combater passarão a representar outro papel que não o de vítimas.

BuÉtnico - És uma das pouquíssimas mulheres que dão a cara, como sobrevivente e na luta contra a MGF, não tens problemas em falar sobre o que te aconteceu aos 8 anos de idade?

S.A. - Não, o único constrangimento que sinto é em relação ao meu filho de 6 anos. Pergunto-me qual será a reação dele quando vier a saber ou ler sobre essa passagem da minha vida, mas é apenas ele que me preocupa, outras pessoas não, porque não é um problema que eu tenha criado, é um problema do mundo, do qual não posso carregar a responsabilidade, porque também não tive escolha. Ninguém me perguntou: Queres? Então não é um problema meu, é nosso, e temos que lutar para que deixe de existir a MGF no mundo.

BuÉtnico - Tanto quanto sei na Nigéria e na Guiné Bissau a MGF já é crime conheces outros países que criminalizem já, achas que a lei é eficaz?

S.A. - Gâmbia também proibiu a MGF. Eficaz ou não, devemos fazer tudo que for possível para que, pela lei passe a ser um crime em todos os países em que é feira e erradicá-la. Proibir a prática é um dos passos mais importantes para se chegar a erradicação total.

Para o jornal The Guardian publicou um guia cultural da sua cidade natal. Como mulher e sobrevivente de MGF, Sadia tem uma vasta experiênciade trabalho com comunidades de difícil acesso – alertando consciências e dandoeco a vozes silenciadas pela sociedade ou comunidade. O seu documentário (in production) AWAKENING, ganhou o Fundo de Activista Feminista de Berlim Film Fund. Em ficção, foi premiada como produtora em diversos países com a curta-metragem North Atlantic, que levou a Veneza em 2012.

Sadia está atualmente a realizar e co-produzir o seu primeiro documentário longa-metragem AWAKENING, que conta a história de uma jovem somali, activista e defensora dos direitos humanos, empenhada em promulgar uma lei de protecção às mulheres e meninas, destinada a dar justiça às sobreviventes de violência sexual na Somália. Como sobrevivente à MGF eativista defensora dos direitos das mulheres, feminista muçulmana e interseccional Sadia fala em vários eventos em Portugal.