Banda de fusão nos livros de educação musical do ensino básico português.
Há cerca de 7 anos atrás, os Irmãos Verdades foram convidados pelo Ministério da Educação de Portugal para fazer parte do livro da educação musical do 5º ano de escolaridade, 2º ciclo do ensino básico. No livro consta o curriculum e a música original da banda,“Amar-te assim”, com prefácio do pianista Mário Laginha. Em entrevista ao BuEtnico Gabi Verdades diz, “De facto temos vindo a ser objecto de estudo, o meu filho está hoje com 20 e tal anos e estudou esse conteúdo. Para nós é significativo, mas principalmente para a música africana, como se diz, de pequeno se torce o pepino, portanto o pouco que se ensina de música, nas escolas em Portugal, está passar também pela música africana, essa imersão à nossa cultura a partir do ensino oficial é de facto importante”.
No livro constam nomes, como Valdemar Bastos, Amália Rodrigues, e os alunos aprendem os conceitos de diferentes géneros musicais, como o fado, reggae, etc. assim como o que é a kizomba através do trabalho dos Irmãos Verdades. A letra e a pauta da música “Amo-te assim”, têm como objetivo fazer com que os alunos aprendam a toca-la com a flauta. As vezes, há festas nas escolas, e convidam-nos a estar presentes, há crianças que tocam essa kizomba com flauta, sinto-me orgulhoso, não apenas por ser minha música mas principalmente por ser música africana a ser inserida num meio onde há alguns anos atrás era impensável”, sublinha o músico.
Já a nível dos PALOP, segundo Gabi, esta informação passou completamente ao lado, “na luta para nos impormos como africanos na Europa, recebo mais parabéns, aplausos e incentivos de entidades portuguesas e estrangeiras do que dos países africanos de língua portuguesa, porque dali não vem mesmo nada, ficamos admirados porque sabemos que fazemos alguma coisa pela cultura e música africanas pode não ser muito mas é alguma coisa”.

Gabi diz que ficaria feliz se fosse escolhida qualquer banda africana, por ser algo inédito, “significa que o povo português consome a nossa música. Quando nos questionamos sobre o porquê da popularidade da banda, ou porquê a escolha da música “Amar-te assim”, para um livro do ensino oficial, é porque as nossas kizombas, se aproximam da cultura onde crescemos. Viemos para Portugal ainda miúdos, logicamente sofremos influências da música portuguesa e europeia. Fazemos muitos concertos nas comunidades portuguesas pelo mundo fora, por norma há um público de 30% de africanos, mas os outros 70% são garantidamente portugueses e habitantes locais franceses, ingleses, alemães etc.”
Contudo, durante muitos anos os Irmãos Verdades sentiram-se excluídos, sendo uma banda de fusão, possui músicos de Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola e Portugal, as influências das culturais desses países refletem-te na sua música, mas todos vieram para Portugal entre os 3 e 7 anos, a sua educação e influências musicais fizeram-se em Portugal, “no entanto constatávamos que os grandes espaços, como o Coliseu dos Recreios, o Atlético de Cascais e várias outras salas importantes para grandes concertos, só recebiam bandas portuguesas e estrangeiras, a nível de bandas africanas não acontecia absolutamente nada. Nunca vi um festival de música africana, os africanos tocavam nas discotecas ou nos bailaricos que se organizavam. Fazia-me muita confusão, mas de facto, a comunidade africana estava de um lado e a comunidade portuguesa de outro, em termos musicais, daí que, com a editora através da qual lançamos o primeiro álbum, uma das exigências foi cantar apenas em português, vinha ao encontro do que queríamos, o nosso projecto era atingir um público, da comunidade portuguesa, que sentíamos que estava à parte, comunidade essa em que estávamos inseridos, mas como numa estrada paralela, que nunca se encontrava. Podíamos ter começado a cantar em crioulo, em Kimbundu ou inglês, mas na altura em que lançamos o primeiro álbum focamo-nos no português para que nos percebessem e o conteúdo dos nossos ritmos, há poemas dentro das músicas e depois as batidas”.
Gabi Verdades sustenta que o projecto da banda continua a ser a promoção da cultura africana fugir da comunidade em que está inserida, “por exemplo, em 1997, quando gravamos a música “Se eu fosse um dia o teu olhar” do Pedro Abrunhosa, era inconcebível que uma banda de raízes africanas, cantasse uma balada de um músico português, com o ritmo kizomba. Mas teve muito impacto, os portugueses conheciam a música, mas passaram a conhecer um ritmo que desconheciam, durante 3 meses passou em tudo quanto eram discotecas. Depois disso as pessoas descobriram dentro do álbum outras músicas originais nossas, que de facto, eram as que queríamos mostrar. Nesse álbum havia também canções que nos tornaram conhecidos nos PALOP”.
Questionado sobre a presença em programas da televisão portuguesa Gabi Verdades afirma, “Eu ousaria dizer que vamos aos programas de televisão que queremos ir, a hora que queremos e cantar as músicas que queremos, parece pouca coisa mas é importante porque a Media portuguesa abre-se aos africanos, mas não tanto. Houve uma altura em que esteve completamente fechada, e quando uma banda ou cantor tem essa facilidade, para nós é relevante. Sei das procuras, que se fazem pra banda aparecer e sei as ocasiões em que vou, por exemplo daqui até Junho, vou escolher os programas que quero ir, porque me interessa, e, posso garantir que não há um programa que queira fazer na televisão portuguesa que não faça. Porque existe esse respeito e deferência para connosco, pelo conteúdo que produzimos nestes quase 30 anos de carreira e, só temos 9 álbuns, só gravamos de 3 em 3 anos. Por isso estamos muito focados no próximo álbum, porque cada álbum que gravamos cria-nos uma certa carga de zelo e responsabilidade, achamos que temos que ter muito cuidado com o que lançamos.”
Algumas conquistas desta icónica banda têm um valor que o público não conhece, como explica Gabi, “O boom para os Irmãos Verdades em Lisboa, foi quando em três meses, vendemos 60 mil discos, oficialmente fomos uma das bandas mais vendidas durante 3 semanas em Portugal, mas a Sociedade Portuguesa de Autores não dá esses dados se não forem reais. Sobretudo antigamente, por razões promocionais, havia editoras, que, para chamar a atenção aos seus artistas, atribuíam discos de ouro e de platina e anunciavam números de vendas que não correspondiam à realidade. Os discos de ouro, platina etc. que temos, não foram atribuídos pela editora, mas pela entidade que os atribui, que é a AFP, que dá o certificado oficial da SPA, Ministério das Finanças, etc. Porque, quando são números oficiais têm que ser certificados por essas instituições. Nenhuma editora assina que vendeu 40/50 mil discos se não o fez mesmo, em termos de finanças essas vendas têm que aparecer, as vendas das lojas são todas controladas. São pormenores que o grande público não sabe”.

Fundada em 1986, no princípio a banda Irmãos Verdades era composta por jovens bailarinos dos 7 aos 15 anos, participaram nos grandes concertos de Raul Indipwo, membro do Duo Ouro Negro, na época o maior símbolo da música lusófona em Portugal. Como bailarinos foram sentindo a necessidade de formar uma banda de suporte, a partir daí o “Raúl Indipwo” foi a escola prática musical dos elementos do grupo, com aulas de instrumentos, canto e cultura lusófona. Com Raul Indipwo pisaram vários palcos internacionais e durante cinco anos fizeram concertos de norte a sul de Portugal bem como actuaram em todos os países da lusofonia.
A banda tem uma média de 30 a 40 espetáculos anuais por todo país, em Portugal e também nas comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo. Em 2009 foram a primeira banda africana a concretizar um concerto numa das salas emblemáticas de Portugal, o Coliseu dos Recreios, com lotação esgotada e em nome próprio.
Actualmente os Irmãos Verdades preparam o seu 9º álbum onde integram 12 temas originais, destacando-se os singles “Eu te amo” e “És dona”, já disponíveis em todas as plataformas digitais. “Tem sido um trabalho constante no sentido de chegar a um público cada vez maior. O novo álbum também tem novidades, das quais não vou falar, para que as pessoas se apercebam quando sair”.
Os Irmãos Verdades contam com vários discos de prata, ouro e platina, e dos seus 8 álbuns originais destaca-se o “Best Of” da banda, que para além de ter estado duas semanas em 1º lugar de vendas em Portugal, esteve também mais de 1 ano nos primeiros lugares do Top semanal de vendas no país.