Sabemos que a comunidade afrodescendente continua muito presente nas limpezas e trabalhos mais sujeitos à vulnerabilidade desses sectores. Há ainda sombras muito concretas que não podemos continuar a ignorar”, refere a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade Rosa Monteiro.

Se a presença dos africanos e das mulheres africanas foi aceite e reconhecida no panorama português, é igualmente verdade que foi marcada pela construção de um feroz preconceito anti-negro que atingia em particular os escravos. O preconceito emerge e se consolida a partir do século VX, evoluindo em função das diferentes conjunturas e ideologias, atravessando séculos de história em comum.
O processo de construção do preconceito foi longo e desvalorizou os africanos em geral, e as mulheres em particular, a sua inferiorização foi-se refazendo e reforçando nos deferentes contextos históricos, numa linha de continuidade que permite compreender a eficácia e a durabilidade deste fenómeno português, lê-se no último livro da historiadora Isabel Castro Henriques recentemente lançado.
“Até quase aos nossos dias a identificação imediata entre Preta ou Negra = Escrava, marca o imaginário dos portugueses: a discriminação racial e social articula-se para construir uma imagem negativa da africana”, assim se escreve no prefácio do livro da historiadora Isabel Castro Henriques que foi contactada pelo ACM para fazer estudos sobre a presença africana em Portugal e quis focar-se nas mulheres africanas usando imagens que são fontes históricas.
“Era uma vontade que tinha, pôr as imagens a falar, diz a historiadora acrescentando “assim como um texto veicula ideias, as imagens nos seus múltiplos suportes são a visão do seu autor e o contexto em que são produzidas veicula informações, que nos podem contar muito mais do que mostram, sobretudo acerca dos contextos históricos em que foram produzidas”.
O livro recentemente lançado com o título “Mulheres Africanas em Portugal – O discurso das imagens (séculos VV-XXI) conta vivências seculares de milhares de mulheres que foram uma presença efetiva em Portugal e cuja integração, depois da escravatura se organizou através da participação ativa no trabalho contribuindo de forma contínua e eficaz para o funcionamento das realidades sociais, económicas e religiosas portuguesas.
As primeiras mulheres africanas vêm para Portugal como escravas, para Isabel Castro Henriques, o preconceito nasce com o esclavagismo e dura até aos nossos dias pois assim se forma a visão de Portugal em relação aos outros especificamente aos africanos, há uma hierarquização das raças, das culturas desde o século IX, a inferiorização e desvalorização dos outros.
Com base em imagens Isabel Castro Henriques apresenta no Índice e prefácio do seu livro, entre outros, os temas seguintes: “Um discurso fundador do preconceito anti-negra (sec.XIII), “Abastecimento de água à cidade de Lisboa”, um trabalho feito por mulheres negras, “Comércio urbano feito por africanas em Portugal, nos seculos IX e XX”, “O duro trabalho das calhadreiras”, “Mulheres africanas proprietárias de casas”, “A integração no espaço religioso”, “Mulheres africanas na toponímia lisboeta”, e “Presenças femininas africanas no Portugal democrático”.
Na cerimónia de lançamento do livro, Rosa Monteiro Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade refere que a diversidade é uma marca identitária da sociedade portuguesa, mas a “Desvalorização da humanidade dos Africanos”, habitantes no Portugal europeu, desde o sec VX, bem como o seu silenciamento ao longo dos séculos, tornou quase invisível a sua participação na também sua sociedade portuguesa, como se o nosso património cultural e simbólico não vivesse igualmente da riqueza desta presença.
Como em toda a história universal, o silenciamento é ainda maior quando falamos do lugar e do papel das mulheres, afirma Rosa Monteiro sublinhando que está em marcha um processo de desocultação que faz parte das atuais políticas públicas de igualdade e não discriminação, assente numa visão estrutural e intersecional da discriminação e numa perspetiva concertada e suportada em conhecimento cientifico.
Apesar dos avanços da lei, é necessário a prática de medidas de prevenção da violência e da discriminação, de fomento da capacitação e de sensibilização de profissionais estratégicos/as, ou ainda do reforço da agenda social e da visibilidade das questões de igualdade.
Para esbater as múltiplas dimensões das desigualdades e da discriminações em relação a migrantes e/ou refugiados sejam ciganos, afrodescendentes ou outros, há necessidade de produzir informação que vai abrir caminho para se trabalhar no combate a desigualdade étnico-racial, diz acrescendo que o projeto do livro se junta aum conjunto de outras publicações e recursos que visam assinalar a Década Internacional de Afrodescendentes- 2015-2024écada Internacional de Afrodescendentes- 2015-2024, cuja iniciativa cabe as Nações Unidas, visando a promoção, desenho e implementação de medidas de reconhecimento, justiça e desenvolvimento.
Rosa Monteiro sublinha que a ideia é rever as abordagens históricas que têm dominado e que têm ocultado o contributo de um conjunto de mulheres africanas ao desenvolvimento de Portugal, havendo ainda hoje, a marca de um imaginário que associa negra a escrava, uma desvalorização implícita que urge ultrapassar.
A apresentação deste livro onde a seleção de imagens fortes visa destacar as mulheres que no anonimato participaram ativamente no trabalho de construção da sociedade portuguesa contribuindo contínua e eficazmente para as realidades sociais, económicas e religiosas portuguesas, vem no sentido de dar vez e voz ou como diria Maya Angelou: «um pássaro não canta porque tem uma resposta. Canta porque tem uma canção», refere a Secretária de Estado no prefácio do livro.
Mas estarão em 2019 esbatidos todos os lugares comuns negativos que marcavam as mulheres africanas em 1940 ? Apesar de tudo a primeira jornalista portuguesa foi a afrodescendente Virgínia Quaresma.
