Vivências da imigração

by Admin
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Vivências da imigração

Mulheres que desafiaram o status quo do imigrante

Por amor às filhas, como ocorreu com Paula Moio, por amor ao cônjuge no caso de Cláudia Eleutério Gomes,  muitas vezes, temos que tomar decisões difíceis e, uma delas é deixar o nosso chão natal para, em “terra de outros”, conseguir uma melhor condição de vida. Interculturalidade e acreditar, são competências a desenvolver por quem se atreve a fazê-lo.

Mesmo no nosso próprio país, como sustenta Marcela Brito, mentora da obra: “Interculturalidade, NA PELE. Olhares sobre uma carreira internacional”, é preciso ter abertura para aceitar a cultura de outro lugar. “Trabalhei em vários contextos culturais e entendi que há no Brasil várias micro-culturas dentro da nossa macro-cultura”, refere.

Sem desistir da sua identidade mas aceitando a cultura espanhola, está também Natalie Falarara, que se juntou a Paula em Londres, Cláudia Eleutério Gomes, no Japão e Marcela, no Brasil, para a produção do livro que serve de pretexto para esta entrevista.

Carlos Gonçalves, realizador de do programa Café Central e colaborador do BuÉtnico, questiona as autoras sobre a decisão de imigrar, o objectivo da obra, e se, “será este o futuro do mundo?”. 

Carlos Gonçalves - É uma estratégia de marketing ou o pensamento diverso que põem neste livro reflete uma condição social?

Paula Moio - É um projecto de alma, de humanidade, de diferentes culturas que emergem numa só, que é a da alma humana. Falamos no processo de mudança de um país para outro, de todas as vicissitudes, conquistas, adversidades e vitórias. E como a Marcela costuma dizer é um projecto de oito mãos, de três brasileiras e uma angolana que sou eu.

CG - Sabemos que não é certo chegar a uma sociedade estrangeira e conseguir vencer, o que sugerem a quem se propõe romper esses paradigmas?

Natalie Falarara - Na verdade é muito curioso, porque quando olho para atrás lembro-me que a primeira coisa que fui ouvindo era o preconceito de que: Naquele país as pessoas são frias, são rudes etc. Neste livro além de quebrar um pouco a glamourização sobre viver fora no país natal, trazemos um pouco da consciência de que ter uma cultura diferente não significa ser rude ou frio. Tentamos mostrar que, ao imigrar, o importante é ir de cabeça aberta, para sermos capazes de aprender, entender a maneira como se comporta o outro e integrarmo-nos noutra cultura.

CG - Quebrar o preconceito é fundamental?

Cláudia Eleutério – Sim, e voltamos ao que gerou este projecto, que são os desafios que enfrentamos, sendo estrangeiros buscando afirmação profissional no país de destino. Sendo secretária executiva de formação com 25 anos de carreira no Brasil, ao chegar ao Japão não podia exercer e aí pensei: vou fazer o quê com a minha formação e todas as habilidades e possibilidades que possuo? 

Precisava reinventar a minha profissão e direcionar para outro lugar e para onde, como fazer? Em conversa com a Marcela chegamos a conclusão que não existe uma garantia de que vamos conseguir exercer a nossa profissão no país para onde imigramos, é até raro encontrar quem consegue, então buscamos outras possibilidades. 

A primeira barreira pode ser o idioma, como foi o meu caso, no Japão. Quem é brasileiro e imigra para Portugal não tem a barreira do idioma mas tem a da cultura. Dizem que o português é frio ou rude mas na verdade, apenas têm uma cultura diferente, e nós como imigrantes precisamos de estar abertos ao entendimento da diferença de cada cultura. Ao imigrar somos obrigados a olhar para dentro de nós, para conseguir enxergar o outro. Este livro nasceu desse olhar para dentro e depois para fora.

CG - Aprender a limpar o preconceito é mais importante do que sustentar as habilidades, há sempre uma nova construção?

Marcela Brito – Absolutamente, sou a parte do livro que não saiu do país de origem, mas desenvolvo trabalhos com outras culturas e nações, com profissionais que falam outros idiomas, e que, dentro do Brasil, trabalhei em vários contextos culturais e percebi que há várias micro-culturas, que muitas vezes não reconhecemos como parte da nossa macro-cultura. 

Nasci num estado, migrei para outro, me confrontei com o preconceito que tinha em relação àquela região, para depois poder entender a minha origem e entender que na verdade aquela era também uma extensão da minha própria identidade, de quem eu era.

CG - Quer dizer que o caminho mais curto é igual ao mais distante?

Marcela Brito - Certamente, parte de entender um contexto múltiplo dentro da sua própria nação, à qual você precisa se sentir pertencente, entender a sua identidade, para que depois arrisque abrir-se à outros contextos culturais. Dessa forma nós conseguimos entender que essa competência, interculturalidade é fundamental e indispensável no mundo de hoje.

CG - A chave para compreender o livro está nessa imersão que é necessária em relação às questões culturais?

Paula Moio - Sim, ter uma mentalidade aberta, perceber que quando entramos no mundo do outro, a mudança implica que tenhamos que perder coisas, para ganhar outras novas e conquistar um espaço que não é o nosso. É preciso que haja adaptabilidade e aceitação da cultura do outro.

CG - Os angolanos que vão para Londres normalmente fazem uma paragem em Portugal, não há praticamente uma ligação directa, Luanda-Londres. Faz com que o angolano que chega ao UK, leve na bagagem a cultura portuguesa. Como foi para ti Paula Moio, chegar a Londres, já como detentora das culturas angolana e portuguesa? 

Paula Moio – Conseguiu ser mais complexo, porque cresci em Portugal, voltei para Angola na minha juventude, depois vim para Portugal de passagem para Londres. Sou os três Ls, Luanda-Lisboa-Londres. Há que ter toda essa elasticidade, estar atenta aos códigos culturais, ter a curiosidade de conhecer, aprender, e participar fisicamente. 

Ao chegar a Londres tinha para educar as minhas filhas gêmeas com apenas dois anos, portanto, tinha a responsabilidade de entrar numa cultura que seria a delas, mas mantendo a base, a angolana, com nuances portuguesas porque cresci em Portugal. O meu avô é um português de Trás dos Montes, logo tenho que abraçar tudo isso.

CG - O mundo vai ser assim?

Natalie Falarara - Esperamos que sim, o que este livro representa é demonstrar que as estórias só mudam de endereço, como dizia a minha mãe. Cada vez haverá mais estórias parecidas com as nossas. 

Na verdade, ao longo destes sete anos fora do Brasil encontrei bastantes imigrantes, com estórias muito parecidas e também muita gente que voltou porque não conseguiu se adaptar fora. Por falta de abertura da sua mentalidade, compreensão, paciência, porque as vezes as pessoas não querem aprender a aprender do outro e assim é complicado viver noutro país. 

Mudei muita coisa para me adaptar à cultura espanhola, também ouvi muito: a cultura espanhola é igual a nossa! Não, desculpa, não é, mas aí é que está o encanto. Acho que o livro é sobre deixar o preconceito e ler mais com a alma, do que com os próprios olhos. O nosso objectivo é poder chegar ao coração de muita gente.

CG - Japão é o ponto mais distante, tomando como referência o nosso posicionamento e, é talvez a cultura menos digital entre as nossas. Como se toma a decisão de ir morar no Japão, é fascínio pela história, desafio pessoal, o que foi?

Cláudia Eleutério Gomes- Agora vou ter que tornar pública uma estória só minha, fui para o Japão por amor. Casei com alguém que já tinha vivido no Japão, sempre disse que tinha vontade de voltar, nunca me enganou e assim fomos, por enquanto estamos bem lá. Se o desafio vale a pena, claro que sim, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. 

Para mim o amor é escolha, e com ela veio essa riqueza, uma nova profissão e, muitas outras coisas que, se não tivesse aberto essa oportunidade, não teria conhecido. Para mim o livro tem dois propósitos, quebrar o mito de que a imigração é glamour, porque não é de maneira nenhuma, mas tem o seu lado de aprendizado, de beleza. Há famílias que vão com crianças pequenas e, ninguém pará pra pensar que a criança não decide, as vezes, a decisão é de apenas um dos cônjuges e vai toda a família numa opção que afecta a vida de todos e, nunca é um processo fácil.

CG - Parece-me que a Marcela é a grande privilegiada, não saiu de casa e está numa casa que recebeu africanos, europeus, americanos, todos foram ter a casa dela. A riqueza interna do Brasil pode nos colocar diante de uma questão fundamental para o futuro, que é a gestão e partilha do conhecimento que, no mundo é um bocado desigual.

Marcela Brito – O propósito para compartilhar as nossas estórias e  conhecimento, porque são quatro estórias muito diferentes, mas quatro culturas que têm como base a lusofonia, que é o que une as nossas almas e nos pôs diante do desafio de levar a mais pessoas a oportunidade que existe em se abrir para a descoberta de outras culturas. 

Há uma fala muito interessante que surgiu durante o nosso processo criativo, da Cláudia com relação à primeira coisa que se precisa entender quando se vai para um outro país, é que aquele lugar não é o seu de origem. É impossível migrar ou imigrar com a consciência de que o outro vai aceitar o que é seu, é você indo para outra casa, logo, é você que precisa saber que algumas concepções terão que ser feitas, são estórias de muitos desafios, muitas lutas.

Sou privilegiada por não ter saído do meu país, mas acabei tendo desafios que acreditava que não teria no Brasil, há surpresas, quando se sai de uma região para outra. Deparamo-nos até com preconceitos, temos que os superar para conseguir ver o mundo por um ângulo ampliado, podemos fazer carreira internacional, mesmo não tendo saído do nosso país.

Paula Moio - Uma das coisas que me disseram quando cheguei a Londres foi que não poderia trabalhar em secretariado executivo porque era diferente e eu simplesmente decidi não acreditar nisso e tentar descobrir qual era a diferença que me impediria. Fui a primeira entrevista e entrei para a BBC de Londres.

Natalie Falarara - Em Espanha aconteceu a mesma coisa comigo, muita gente dizia: o quê, assim de primeira? Você não vai conseguir, é impossível, mas na verdade acontece o que a gente acredita.

Cláudia Eleutério - No meu caso, no Japão, quem vai para lá, por norma vai para trabalhar em fábricas e também ouvi muito as pessoas dizendo que seria impossível afastar-me dessa realidade, mas eu contradisse isso, portanto temos três estórias de pessoas que imigraram e desafiaram o status quo do imigrante.

Acho que em qualquer situação um imigrante é alguém muito corajoso. Quem vai para o Japão não vai por glamour, há lá muitos peruanos e outros, inclusive da Ásia, que vão porque lá têm uma condição profissional melhor do que nos seus países. 

Mas, na verdade para desafiar o status quo você precisa de ter não apenas coragem, mas também ter estômago, porque vai enfrentar resistência até dos que perguntam: Como assim você não vai trabalhar na fábrica? Como assim, conseguiu um emprego melhor? Quem você pensa que é, melhor que nós? Muitas vezes, sou tida na comunidade brasileira no Japão, como arrogante e estou muito longe de o ser. Na verdade, apenas pensei que tinha o direito de tentar algo diferente e de acreditar que é possível.