Black Story Month homenagea Francisca Van-Dunem

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Black Story Month homenagea Francisca Van-Dunem

Por Reginaldo Silva

Muito recentemente, mais exatamente, dia 29 de Fevereiro, realizou-se em Lisboa/Gulbenkian uma Gala onde foram homenageadas algumas personalidades da diáspora africana no âmbito do "Mês da História Negra" que é uma iniciativa do Governo canadiano que já tem alguns anos na agenda oficial daquele gigante norte-americano.

www.canada.ca/en/canadian-heritage/campaigns/black-history-month.html.

O projecto canadiano, que contou com o apoio da nova Agência das Migrações, desta vez foi até terras portuguesas estender o seu abraço de reconhecimento a personalidades como Virginia Quaresma, Eusébio Ferreira da Silva, Sara Tavares  e Francisca Van Dunem.

Dos quatros escolhidos, apenas a Francisca Van Dunem está em vida.

Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, também eu quero homenagear uma destacada angolana de  quem sou amigo há bwé que é a Francisca Van Dunem.

Como homenagem nada melhor do que partilhar aqui as suas próprias palavras, que fazem parte do seu discurso de agradecimento à distinção que lhe foi feita pelo Canadá no quadro do "Mês da História Negra" que é assinalado todos os anos em Fevereiro.

É suposto que diga agora umas palavras, falando da minha vida, do que fui, do que sou, daquilo que a vontade e as circunstâncias fizeram de mim… Mas, acontece que hoje eu sou Virgínia - sem nunca ter tido o privilégio de fazer uma reportagem; sou  Eusébio - sem nunca ter conseguido fazer entrar uma bola numa baliza;  sou Sara Tavares - sem ter vindo ao mundo  com o dom de encantar multidões com a voz.

E orgulho-me de poder hoje ser todos eles, e de ser também aqueles que nunca foram aplaudidos num estádio, ou num palco aqueles que nunca pisaram a redação de um jornal, os que nunca sequer puderam aprender a escrever e a ler,  mas que educaram os filhos dos outros, que cuidam dos idosos deste país,  os que construíram e constroem as nossas cidades, os que varrem e limpam as nossas ruas, os que cuidam dos nossos parques e jardins, os que trabalham nos hospitais, nas escolas, nas universidades.

Mas sou também os que abriram e abrem novos horizontes à escrita. Os que pelas artes plásticas mantêm vivas as raízes e a alma do lugar de que todos partimos, a nossa alma mater; África. Os que reinventam os ritmos, a harmonia e os sons na música. Os que exploram novas expressões do corpo na dança; os que filmam e encenam temas que deviam estar escritos em páginas que não existem, e levam à cena os degradados do mundo, os condenados da terra, as suas histórias, as suas memórias, os seus corpos, cuja humanidade vem sendo, há séculos diminuída, aviltada e ultrajada.

Hoje sou também os milhares que, desde o século XV foram chegando acorrentados a Lisboa, a Setúbal, a Lagos e os que, escravos, ou homens livres, foram artesãos, caiadores, pescadores, trabalharam na salga, na venda de pescado. Sou ainda as mulheres que, nessa época, que foram as lavadeiras, as aguadeiras, as vendedoras de milho, de arroz e chicharros cozidos, do tremoço, da fava rica.

E sou também os que buscam na investigação e na pesquisa, o resgate desse tempo e escrevem a história de mais de cinco séculos de presença negra em Portugal, da vida desses homens e mulheres e das suas organizações de solidariedade social e fruição cultural: as confrarias, as irmandades negras, os grémios.  Hoje a minha história funde-se com a de todos eles; hoje sou todos eles… e ao sê-lo, transmuto-me numa partícula menor de um sujeito coletivo, de uma grande comunidade, saída de Angola, da Guiné, vinda de Moçambique, oriunda de Cabo Verde, de S. Tomé e Príncipe, e de outros espaços de África. Hoje é isso que quero ser e a minha história individual pouco importa… 

Pouco importa, a não ser na medida em que, quebrando a invisibilidade de um grupo racial - nas instâncias de poder judicial e político, por onde passei -, possa ter contribuído para realizar o sonho coletivo de afirmação de igual dignidade de todas as raças e contribuído também para desfazer estereótipos negativos persistentes, humilhantes e castradores. Se me tivessem sugerido há dez anos, que viesse participar num evento desta natureza, eu diria que não.

Diria que, ao fazê-lo me estaria a catalogar-me, como algo diferente de um ser humano, como algo dissemelhante dos milhões de outros seres humanos que habitam a superfície da terra. A minha raça não me define – seria seguramente a resposta que eu daria.  Mas hoje penso diferentemente. A minha raça não me define, mas filia-me. Filia-me nessa enorme diáspora. A diáspora negra africana, que partilha uma mesma viagem. Uma viagem coletiva.

Uma viagem que vimos fazendo, através dos séculos, pela reposição da nossa igual humanidade; pelo resgate de uma história que envolve saque, violência, destruição,  mas também resistência, heroísmo, grandeza humana e um sem número de realizações, na Europa, na América, no mundo.  

Fui durante muito tempo magistrada e exerci funções de direção relevantes na magistratura do Ministério Público. Essa condição era conhecida e partilhada pelos que me eram mais próximos. Não dizia nada ao público em geral.  Entre 2015 e 2022 exerci funções como Ministra da Justiça. E, nesse tempo, percebi, que esse facto, essa circunstância nova na minha vida, tinha tido um profundo impacto/ na comunidade negra africana e afro descendente. Percebi que estava a viver o presente de uma história que não era só minha - mas que pertencia de milhares de identidades gémeas que, em mim, e através de mim, experimentavam o reconhecimento da sua igual dignidade, da sua capacidade, da sua aptidão. 

Vivo com a percepção lacerante e decepcionada de que, no que se refere à questão racial, o tempo paira… o tempo paira e não passa. O tempo recusa-se a avançar; resiste a fazer desabrochar as mudanças por que tantos, há tanto tempo, aguardamos. Nos 68 anos da minha vida, nada de seminalmente transformador aconteceu.

Por isso, todas as iniciativas que possam contrariar a inércia do tempo, recusando-lhe o direito a descansar, são positivas, são bem vindas, são dignas de louvor.  Sei que os meus olhos não verão já a luz, quando chegar o tempo em que todos os dias, e todos os meses, de todos os anos, serão de celebração da história de todos: de uma única raça. A Raça Humana a que todos pertencemos.   

Insisto em alimentar a esperança de que esses dias virão; que virão os dias e as horas em que todos os dias e a todas as horas se evocará o contributo que, nas diferentes latitudes, as mulheres e os homens do passado aportaram ao progresso da humanidade.

Habita-me uma confiança firme e serena de que os meus netos, os meus bisnetos e as gerações que se lhes seguirem, viverão esse tempo, e vivê-lo-ão também por mim. Vou terminar. Faço-o abraçando os que partilham e também os que não partilham a minha história, e agradecendo, penhoradamente à Embaixada do Canadá e à AIMA o empenhamento naquele que parece ser um dos mais longos e difíceis enfrentamentos pela mudança que a espécie humana já conheceu.