Uma ponte entre as entidades e as comunidades
A Associação Movimento 20/40 é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Oeiras, no Bairro dos Navegadores.De acordo com o seu presidente José Varela, os objetivos são o desenvolvimento social, capacitação e validação das competências dos cidadãos. “Pretende-se consciencializar os jovens e as comunidades para a importância do progresso em áreas como o ambiente, saúde, cidadania, desporto, educação e cultura.
As comunidades africanas e em especial a cabo-verdiana, serão convocadas pela Associação a participar em conferências, colóquios, campanhas de limpeza, feiras de saúde, actividades culturais, desportivas e recreativas, projectos nacionais e internacionais. A cooperação e intercâmbio com instituições nacionais e internacionais é também objectivo da Associação 20/40, que deseja actuar como ponte entre as entidades competentes e as comunidades, promovendo atividades que gerem rendimentos e incentivo à criação do próprio trabalho.
Em entrevista ao programa Afridentidade, no Instagram, Varela que é português filho de cabo-verdianos, considerou a união uma premissa fundamental para o sucesso desta nova plataforma.

“Nos bairros de barracas entre aspas, as casas ficavam de portas abertas e havia uma convivência salutar entre os adultos e os jovens, respeitávamos os mais velhos como aos nossos pais. Sinto falta e saudade daquele tempo. Cresci a coabitar com a cultura e com as tradições de Cabo Verde. Havia dificuldades mas erámos muito mais unidos, o realojamento deu-nos casas melhores mas gerou o afastamento. Actualmente os vizinhos nem se conhecem, perdeu-se a irmandade que tínhamos”.
Nos bairros moravam cidadãos de diferentes culturas e nacionalidades, Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau, S. Tomé, e da comunidade cigana. “Continuamos a ter trabalhos precários nas limpezas, obras e construção civil, o abandono escolar e a falta de tempo dos pais para fraternizar com os filhos, são os maiores flagelos das comunidades africanas” afirma.
A Associação Movimento 20/40 pretende abarcar as gerações de 2020 a 2040 e exaltar a necessidade de uma maior união, solidariedade e acções palpáveis para mudar a vida das crianças e jovens africanos.
“Falo do bairro dos navegadores que é a realidade que conheço, tem 400 famílias, não tem um Centro de Saúde, um Gabinete de apoio jurídico, de apoio psicológico. O apoio jurídico não é só necessário por causa de crimes. Sei de muitos africanos que são injustiçados, são-lhe penhorados os salários, perdem os subsídios ou pensões, as vezes, por ter assinado um contrato de telefone mal interpretado”.
Para José Varela, a criação de negócios próprios, o auto-sustento e o auto-consumo são acções que as comunidades africanas devem adoptar para sanar o problema do desemprego e não só. “Nos Navegadores não há um transporte que apanhe os filhos das mães que deixam o trabalho depois do horário da saída das crianças, se as mães se atrasam 5 minutos apanham multas, se chegam uma hora atrasadas, os filhos são sinalizados pela protecção de menores como crianças em risco. Nós como comunidade que papel temos afinal?”
A Associação 2020/40 quer assumir tarefas que modifiquem o futuro das crianças e jovens africanos. “Estes que hoje faltam a escola, roubam carros, metem-se nos chamados “bifes na Internet” que são lutas entre gangs, acabam presos, mancham o seu registo criminal e muitos apanham penas máximas. Se cumprem uma pena de 10/12 anos de cadeia, o que podemos esperar deles? Ao visitar amigos e filhos de amigos, pergunto se terão trabalho, se terão um tecto ao sair da cadeia, e não há respostas”, afirma Varela sublinhando: “é muito importante tomar consciência destes problemas e orientar os nossos jovens no sentido de, não hostilizar nem menosprezar uns aos outros, mas sim ajudar, unirmo-nos pelo bem comum”.
