"Acredito que posso ajudar outros com a experiência significativa que adquiri, a estarem tranquilos em relação à sua cidadania e origens" - Entrevista ao Cantor Jay Moreira
(6 álbuns editados)

Saltou para a ribalta sobretudo em Cabo Verde onde em três anos se tornou o centro das atenções e acredita que foi especial, “era o Michael Jackson de Cabo Verde e não tenho problemas em dizer que vivi la emoções muito fortes, fui muito acarinhado, houve estórias de pessoas que choravam ao ouvir a minha música. Houve um caso de um compatriota que voltou dos EUA para CV por causa de uma música minha que ouvi, conforme me contou”.
Mas Jay não se quer aproveitar do sucesso que tem em Cabo para estacionar, “sinto que tenho potencialidade para me mostrar ao mundo e é o que pretendo”. Músico e compositor africano e português Jay Moreira, considera-se um artista ao serviço do rap, mas também ao serviço da palavra dita de forma equilibrada.
Nasceu em Cabo Verde, aos 4 anos veio para Portugal, a brincar acusamos: Já tens cabeça de português…, ao que responde também a brincar: Sim tenho cabeça e o cuidado do português, tomar cuidado é importante…(risos)”, mas tenho orgulho de ser cabo-verdiano e sinto que o português precisa de mentes diferentes e que devo ser uma dessas mentes. Sinto que posso ser um meio de ajudar os outros a estarem tranquilos em relação à sua cidadania e origens”.
Conheceu e entendeu-se bem com o angolano Matias Damásio em Cabo Verde e cruzou com artistas africanos nos anos em que viveu na Noruega onde participava como artista convidado em muitos eventos, alguns promovidos por instituições do estado norueguês.
A sua banda de artistas noruegueses à qual chamaram Sempre Bandidos derivou de um encontro entre músicos de várias latitudes como, Cabo Verde, Austrália, Noruega e Irão. Na Noruega onde morou oito anos teve a oportunidade de viver uma verdadeira troca de sensibilidades culturais, através da sua música inspirada no Hip Hop, na música afro-americana. Destaca que o facto de ter começado n o RAP, que junta vários estilos, faz com que não tenha complexos em relação a quaisquer músicas do mundo.
“Gosto das músicas das Antilhas mais tradicionais, em que nem sempre entendo as letras, mas sinto que a voz é tão natural, que quando chora a própria voz vai dizendo sentimentos. Sinto que a minha voz se encaixa nesses ritmos e se tiver oportunidade mais tarde talvez me desenvolva nesse estilo com a minha voz. Por enquanto quer estar em cima dos palcos e resgatar o respeito que foi perdendo o estilo RAP, que é um género que nós africanos iniciamos aqui na Europa, prefiro ter a missão de continuar”.
Jay faz as suas próprias melodias e letras e explica como ser desenrola o processo criativo “a sensação que tenho é que a música já me está dizer alguma coisa e o meu intuito vai tentar ouvir o quê que o ritmo está a dizer e o próprio tema vem através da música também. Sinto que a melodia me está querer dizer alguma coisa, as vezes em português, as vezes em crioulo e um pouco também em inglês. O ritmo vai falando e eu vou tentando entrar procurando não sair do contexto da batida e sinto que as palavras se encaixam na música. Quando tenho uma história concluída sei que a música está pronta”.

Como o RAP deixou de ser apenas de orgulho
Quando começamos a fazer rap procuramos bastante uma editora porque estávamos a trabalhar para sermos bons, mas em Portugal as rádios e editoras ignoraram-nos, mas depois de muita insistência houve um português ou dois que conseguiram estar no circuito normal, ao passar nas rádios, televisão etc. Nessa etapa, nós os africanos começamos a ficar excluídos e começamos a criar a nossa própria forma de estar, alguns foram apoiados, mas mal”.
“Uma editora espalha as músicas e estas ganham direitos, quando não és editora, mas tens dinheiro acabas por arranjar formas diferentes de receber dinheiro de volta, quando esse dinheiro não vem das editoras mas de outros lados, acho que isso prejudicou o rap. Acho que se tornou uma espécie de álcool, é preciso que haja bêbados para consumir o que é bebida alcoólica, parece-me que foi o que aconteceu com o rap, mas penso que temos mentes fortes para dar a volta a isso”.
E acrescenta “o objetivo que devíamos ter todos atualmente é o de ajudar as pessoas a buscar a sua identidade, porque aí as pessoas tornam-se melhores, de forma que também os portugueses não sintam que estamos perdidos, descobri isso através da minha própria experiencia, da minha música, que é o meu dom, acredito que posso ajudar outros através da vasta experiência que pude adquirir”.
A trabalhar com crianças em escolas de Cascais, ele explica “já havia feito esse trabalho antes de ir morar para a Noruega e estou a faze-lo novamente agora. Apesar de ter crescido em Portugal consigo sentir-me genuinamente cabo-verdiano e isso faz-me bem. Noto que o melhor cidadão é aquele que se identifica com as suas raízes, com o seu berço, é mais feliz porque é mais autêntico.” O artista acrescenta, ”isso transparece nas pessoas que te veem, acho que o próprio português sente quando um estrangeiro tem orgulho das suas raízes e pensa que não estás cá para tirar algo mas sim para acrescentar, porque o mundo pode se concentrar todo num mesmo lugar. Acho que aquele que está perdido sem saber de onde vem e sem identidade acaba sempre por ficar um pouco triste”, mas, mesmo os cabo-verdianos que cresceram cá nos bairros, viveram África, não cresceram como portugueses, crescemos cá como cabo-verdianos e ainda bem porque não perdemos África para sempre, porque aí perdíamos África e Cabo Verde perdia, acho q tudo tem um motivo, há que busca-lo”.
Jay considera que muitos africanos que se dizem portugueses, no fundo, não se sentem portugueses, porque nos seus bairros viveram África, mas se calhar melhor para eles. E acha que se calhar falta algo na sua maneira de se expressarem para se sentirem aceites, porque não tem haver com ser português, “tem haver com a lógica das coisas dás um bom dia a pessoa responde-te: bom dia se deixas de dar bom dia porque no teu bairro não estás habituado logo o português não te pode responder, penso que em Portugal ao morarmos num bairro em que estamos como africanos podemos ter criado vícios para nos protegermos que são contra a lógica de um dialogo e é isso que atrapalha um bocado o nosso espaço, não tem haver com ser ou não português, acho que não tivemos desde sempre a consciência de que um dia seríamos observados e contestados. Portanto, antes de lutarmos para ser aceites como portugueses precisamos de nos questionar, ver se é disso que precisamos, será que não tens primeiro que aceitar ser a pessoa que és, saber a estória dos teus pais e da tua família?”.
Para um bom entendimento Jay acha que falta boa vontade “de cada um de nós e também de valorizarmos o que os nossos pais fizeram no passado por Portugal, se esquecermos o passado negativo e nos focarmos no que somos e fomos de positivo, vamos perceber que tivemos um papel importante na construção do Portugal atual, em especial os que trabalham na construção civil que ninguém valoriza mas são pessoas que foram úteis e que tiveram um papel fundamental na construção da sociedade de que se envaidece o português que julga que está ser invadido”.
Os africanos têm que se focar no que na realidade foram e representam, observa, “Há dias escrevi um texto que dizia não te foques no café que bebes mas foca-te no grão, nem no chocolate mas sim no cacau, porque atualmente as pessoas estão envaidecidas com o vazio e deixam-se levar em discussões que não valem em nada a pena”. O músico cita a estória do próprio pai que morreu cedo e como muitos africanos foi explorado dando o seu suor e sangue na construção civil, em Portugal.