O sucesso ou ascensão económica, não são motivos que impulsionem Da Soul a tocar a sua guitarra e desenvolver projectos de música instrumental. Luso angolano que se sente absolutamente integrado em Portugal, Miguel Pereira ou Da Soul deseja acima de tudo enriquecer a cultura e tentar chegar às nossas almas com as suas melodias.
Em 2018, lançou o primeiro álbum, “Regeneração”, três anos depois, o segundo, intitulado “Liberdade de Expressão”, em formato online e físico, à venda em todas as lojas da FNAC em Portugal. O soul, semba e jazz são a base musical das composições do artista, que, através da música tenta reviver conjunturas das suas raízes e da sua ancestralidade. “Não quero perder as minhas raízes angolanas, nem portuguesas, fazem parte do que sou”.

Porquê o nome Da Soul ? O soul faz parte do jazz?
São estilos diferentes mas, historicamente, na minha óptica, estão interligados em termos de cronologia, mas diria que são muito distintos. O nome Da Soul tem precisamente haver com o facto de sentir que faço músicas que vêm da alma, são instrumentais, músicas diferentes. Da Soul, significa Da Alma, é esse o foco dos meus projectos, fazer melodias simples, que nos toquem de alguma forma na alma.
Interessas-te pela música desde os 9 anos. Conta-nos um pouco dessa incursão.
Ainda criança os meus pais ouviam muito CDs do Paulo Flores, Bonga, Waldemar Bastos e outros, ficava interessado em perceber que instrumentos estavam a ser utilizados. Acho que foi o bichinho que me agarrou para o mundo da música”. Infelizmente, em virtude de situações da vida, só comecei a estudar e a tocar guitarra aos 28 anos, inscrevi-me na Escola de Música de Monte Abrão, que é direcionada para um ensino moderno, com foco no jazz, agora tenho 32.
Estudei primeiro piano, mas cheguei a fazer aulas particulares de guitarra com o professor Tiago Estrada. Entretanto, cheguei a conclusão que não tinha condições financeiras para adquirir um piano, até pensei: “isto não é para mim”, os bons instrumentos são caros”.
Porém, quando estava para desistir da música, uma colega que tinha um guitarra em casa a ganhar pó, disse-me: quero-me desfazer dessa guitarra, conheces alguém? Senti aquilo como uma oportunidade para não seguir outro caminho. Era uma guitarra bem básica, clássica, com cordas de náilon, um braço bem largo, aproveitei e agarrei a chance, voltei a contactar professor para continuar as aulas, foi a minha primeira guitarra. Costumo dizer que caiu do céu.
No teu primeiro álbum, Regeneração, quantas faixas incluíste?
São dez faixas, nove instrumentalizadas e a última cantada. Canto a faixa “Tributo a Xangó, mas o que realmente gosto é de tocar, criar melodias espontaneamente. “Tributo a Xangó” foi escrita por mim e pela Irene Quintiliano, fizemos a letra instintivamente no estúdio em que estávamos na altura, é um tributo a um orixá, o orixá do fogo.
Dizes que fazes uma fusão entre o jazz e a ancestralidade, o que é ancestralidade em termos de música? Existe uma música ancestral africana?
Dentro do que faço, é a utilização de instrumentos ancestrais africanos como a conga, o xequere e outros que estão ligados às minhas raízes. A minha mãe era angolana, tento mesclar o que me foi ensinado em termos de ancestralidade com as minhas melodias, que têm nuances de jazz e daí surge o afrojazz, é uma fusão musical. É curioso porque, apesar de não ter o conhecimento específico, a minha memória auditiva leva-me por aí, mas nunca estive em Angola.
Trabalhas sempre sozinho, tocas tudo ou chamas outros músicos ?
Nos dois primeiros álbuns toquei tudo, em casa e depois juntei. Apenas chamei o Azuzulula para tocar uma dicanza e a cantora de gospel MissFi para meter voz na 7ª faixa do “Liberdade de Expressão”, tive o Pedro Cardoso a tratar da mistura e da masterização, mas o bolo todo, faço eu. Pego na ideia começo a construir, vou colocando os instrumentos e a partir daí as coisas nascem.
Para apresentações ao vivo, são contratados músicos porque não consigo tocar tudo ao mesmo tempo. No meu próximo projecto, que está quase todo idealizado e pronto, já terei músicos convidados para interpretarmos vários temas. Vou apresentar o projecto aos músicos e vamos para um estúdio gravar em banda, para fazer algo diferente.
Desfrutando do processo

O que pretendes transmitir com os teus instrumentais?
Espero que as pessoas possam sentir o que sinto, quando faço este tipo de músicas, que é, uma espécie de terapia para a alma, um acalmar de toda a correria que vivemos no mundo actual. O principal foco é que possamos elevar a nossa consciência a estados superiores, mas cada um sabe qual é o seu estado superior. Que ao fim de um dia de trabalho cansativo, a minha música possa ser uma boa companhia para descansar, se estivermos numa praia a olhar o mar, que possamos estar numa vibe de sossego e paz interior.
“Liberdade de Expressão”, o teu segundo álbum apela à liberdade para te expressares?
Sim, numa altura em que me encontrava na dúvida entre cantar e tocar. Cantei no álbum Regeneração, mas questionava-me sobre que tipo de artista queria ser. Fui pesquisando, vi que havia muitos artistas, mais nos EUA, a fazerem música instrumental, aí pensei: mas porquê que eu não posso apenas tocar? Porquê que tenho que cantar para ser músico ou fazer música ? O título surge por causa desse questionamento, do qual decidi que sou livre para me expressar da forma que considero a que mais ou melhor ressoa em mim, que é através dos instrumentos.
Acho que as músicas com letras remetem os ouvintes para um tema, no instrumental o ouvinte tem a liberdade de sentir o que lhe vai na alma. Já aconteceu outros músicos pedirem-me: olha gostei daquela música mas gostaria de alterar algumas coisas, pôr uma letra, retirar certos instrumentos. Eu disse: okey, podemos conversar para perceber até que ponto a tua versão vai convergir com a minha, mas não para alterar músicas minhas. Contudo, estou aberto à propostas. Volta e meia contactam-me para pedir uma música ou outra.
De onde nasce a tua ligação às coisas do espírito, à ancestralidade?
Não sei dizer precisamente de onde vem. Na altura em que comecei, sentia bastante curiosidade em relação à mitologia africana, queria ter algum conhecimento sobre essa matéria. Sabendo que existe mais do que o cristianismo, o catolicismo ou a visão evangélica, pensei: “deixa-me ver o que os meus ancestrais praticavam em termos de religião”, e por aí fui seguindo.
Admites a possibilidade de explorar outras temáticas?
Certamente, gosto dessa temática mas não para me envolver a fundo, porque gosto de deixar as portas abertas à todas as possibilidades.
Qual é a importância que atribuis ao estudo, não basta talento para ser um bom guitarrista?

Acho que o talento é 10% do necessário, se não trabalhamos esse talento, é como saber cozinhar um único prato. Convém estudar, conhecer o instrumento, ler a pauta com calma, ir lá várias vezes e não ser apenas um músico fast food, convém fazer mesmo cursos e especialidades.
Parece-me que grande parte dos músicos seguem o mais o seu talento, não têm muita paciência para estudar.
Que não vão pelo caminho pedagógico? Sim, mas cada um é como cada qual, cada um cuida do seu quintal. A visão que tenho, também tendo em conta os músicos que vou seguindo, mesmo estando envolvidos em vários projectos, fazem do estudo algo contínuo, porque existem vários estilos de música, a nível global há imensa coisa para se aprender, requer de facto tempo, estudo e dedicação.
Dás aulas de guitarra para pagar as tuas aulas, aparece muita gente interessada?
Sim, claro que cobro valores simbólicos, não os que se praticam nas escolas, ainda sou estudante também. Mas pessoas vão sabendo que toco, que sou estudante de música e tem sido assim pelo boca a boca. Da experiência que tenho penso que sim, há muita procura.
Não colocas a hipótese de reformular a tua música para que se torne digamos mais comercial de forma a vender mais ?
Não sei o que é música comercial. O que realmente quero é fazer música, se com o passar do tempo aparecer alguém que faça alguma direcção artística, que me diga: olha é este o tipo de ritmos que tem mais saída dentro do que fazes, podes modernizar por aqui, algo assim, aceito trocar ideias, ver se conflui para algo que me satisfaz. Mas o meu foco não é capitalizar, ser vendável, não, é mais fazer boa música, enriquecer a cultura, sei que com o tempo o que tiver que vir virá.
Já sabes o nome do teu próximo álbum e quando farás o lançamento ?
Sim, mas prefiro deixa-lo ainda por revelar. O “Liberdade de Expressão” faz um ano em Agosto, já tenho em mente uma data de lançamento do próximo trabalho, mas não quero adiantar nada, quero fazer as coisas com calma, malembe, malembe, desfrutando do processo.
Que futuro que vislumbras para os artistas afrodescendentes em Portugal?
Penso que cá há mercado para os músicos afrodescendentes e há vários com sucesso, mas na minha opinião, é ainda um mercado unilateral, ou seja, são favorecidos determinados géneros em detrimento de outros.
É curioso que em Angola também há artistas fazendo música instrumental, que eu sigo, como por exemplo o Mário Gomes, que é um grande músico de jazz, há o Isaú Baptista que era da banda Maravilha, o Carlos Praia, são músicos que estão a singrar no mundo instrumental, mas ainda não aprofundei essa questão.